Médico não é bigorna - Renzo Sansoni
Médico não é bigorna
Renzo Sansoni
Algo de novo, e de estranho, está aparecendo na sociedade brasileira e que merece aprofundada reflexão. Uma nova classe de doentes está surgindo, sem inscrição no Código Internacional de Doenças, sem agente infeccioso específico como causa; e que está causando, por sua vez, rebuliço e coçar de bigodes na classe médica.
Como e quando apareceu, é-nos impossível precisar; parece estar associada com as espalhafatosas e mal conduzidas notícias televisivas, em que colocam o médico como culpado pelas mazelas sociais do País, apontando como erro médico até a falta de novalgina nos hospitais.
A verdade é que tais pacientes, neurotizados pelas agruras da vida, órfãos de políticas e políticos saudáveis, e atarantados por tantas desgraças e mal feitos noticiados nas televisões, absorvem todas as neuras e desatinos possíveis e rumam para os consultórios médicos. Se vão bem-intencionados ou não, é o que descobriremos nestas linhas. O que vão procurar, na maioria das vezes, não é por uma consulta/cirurgia médica aliviadora e
curativa.
No início, parecem simples cordeirinhos, dispostos a obedecer a todos os sagrados mandamentos médicos. Mil juras de amor no doutor, todo mesuras com as secretárias, etc. Quando alguma coisa não dá certo ou complica (o que é muito normal na prática médica, pelo grande número de variáveis envolvidas), aí aparece o lobo dentuço e de olhos fumegantes na procura de um chapeuzinho vermelho, ou melhor dizendo, de um esculápio vestido de branco. Já chegam ao consultório, apontando o dedo no rosto da secretária, contaminando as salas de esperas com palavras cheias de fel e ressentimento, e numa impaciência desalinhada.
Alguns chegam até com ameaças físicas contra as funcionárias, quando a delicadeza destas aconselham um relaxamento antes de chegar ao médico. Adentrando os consultórios, esquecem das mil juras de amor, e destilam venenos por todos os poros, sem se importar onde estão e com quem estão. Já se esqueceram até do que foram fazer lá. Exigem milagres imediatamente, sob a pena de irem até as últimas consequências. Saem batendo portas, sem nenhuma despedida fraternal e entram no primeiro escritório de advocacia de qualquer esquina.
Inventam toda uma fanfarronada, exigindo milhões de indenização. Erro médico, é o que gritam, com amplo estufamento das veias do pescoço. Olha só o que aquele açougueiro fez comigo, e assim por diante...
Está formado o angu de caroço. Os advogados, na maioria sedentos por uma boa causa, entram de corpo e alma, impensadamente, na onda e na fantasia do fulano; e levam até o juiz, entulhando ainda mais a entulhada e morosa Justiça, toda uma enorme quantidade de besteiras, farsas e documentos anêmicos. E na maioria absoluta das vezes, como o provam as estatísticas, o erro médico não existiu, para ampla tristeza do doente e do causídico. Simplesmente, porque Medicina não é ciência matemática; é ciência onde o profissional deve colocar todos os meios de cura para favorecer o ser humano, além de uma ética e uma responsabilidade vultosas.
Recentemente, recebo uma notícia bem pertinente com estas linhas: um médico processa um cliente por desrespeito à funcionária e por palavrões obscenos na sala de espera. O cliente, além da chateação nos corredores judiciários, pagou muito caro pela inobservância das normas de seu próprio convênio. Um outro fato: uma senhora, com advogado e tudo, entrou na Justiça, requerendo polpuda indenização, por um erro médico que não existiu. Antes do processo ser julgado, a cliente fugiu da cidade, em perseguição policial por enorme estelionato no comércio. Atenção e cautela com todos aqueles que querem ganhar dinheiro sem suor no rosto e decência nas intenções.
RENZO SANSONI é médico oftalmologista em Uberlândia (MG)





