Médico de família
Médico de família
O maior acerto dos médicos é tentar curar o corpo procurando curar a alma (Platão)
Luiz Eduardo Cheida
Quase todo médico sonha tratar seus pacientes como ensinam os manuais: com calma, respeito, atenção e, principalmente, resultados positivos. A vida profissional o atira para o lado oposto: dois a três empregos, salário vil, correria, desatenção e resultados duvidosos. Ele vive angustiado e mais angustiado ainda fica o cidadão quando precisa de seus cuidados. Esta é a lógica perversa de um sistema de saúde ineficaz que campeia pelo País.
Receber o médico dentro de casa, conversar com ele, conhecê-lo e dar-se a conhecer, até bem pouco tempo atrás era privilégio das famílias mais abastadas (e bem abastadas). Pobre, se quisesse, enfrentava fila na porta do hospital.
No dia 12 de setembro do ano passado a cidade de Londrina viu o que nossos antepassados consideravam comum mas que o tal progresso nos tirou quase que para sempre: médicos e equipes de enfermeiros, auxiliares, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos entrarem nas casas mais humildes, nos bairros mais afastados, oferecendo seus préstimos aos enfermos. Estava começando um programa de saúde que, poucos meses depois, receberia destaque nacional como o melhor programa do gênero no Brasil. Mais que isso: um programa que, com o tempo, há de girar ao contrário a roda da histórica e a absurda situação que garante saúde só a quem pode pagar por ela.
O programa médico de família está fazendo um ano.
Todos os dias, equipes de saúde percorrem mais de 100 residências, em Londrina, medicando e orientando pacientes internados em casa. Longe da intranquilidade de um hospital, onde há gente gritando ao lado, ambulância apitando no pronto-socorro, infecções próprias do local, visitas de amigos e familiares restritas a poucos minutos, alimentação estranha e solidão, a recuperação do doente é mais rápida. Dentro de casa, na própria cama, alimentando-se de uma dieta conhecida, ao lado do carinho da família, a recuperação é mais certa.
Para os profissionais, como o médico, que adentra a um lar enfermo, senta-se ao lado do paciente, chama-o pelo nome, passa a conhecer sua esposa e filhos e, com, mais segurança, as origens de sua doença, a experiência é incalculável. Nada há de mais educativo.
A cidade não só ganhou notoriedade nacional como ganhou a oportunidade de modificar, em definitivo, a até então precária relação médico-paciente. Não é por acaso que já se vêem iniciativas, na área privada, de clínicas oferecendo serviços médicos domiciliares, inspiradas nos resultados do programa do médico de família. Alguns médicos, em Londrina, já perceberam que o atendimento, como sonhavam quando estudantes, é possível e, mais que isso, é preciso.
Os mais de 100 pacientes internados em casa também pouparam leitos hospitalares. Seguramente, estariam hoje disputando as raras macas que restam (se é que restam) nos corredores dos hospitais. E quanto custa construir e equipar um hospital de 100 leitos? Cerca de 3 milhões de reais, para modestas estimativas. O programa investiu tão somente 80 mil reais e já nasceu pronto! Esta é uma das muitas obras públicas feitas da mistura do bom senso com a função básica do serviço público, que é servir. Sem cimento, concreto, tijolo ou placa com o nome das autoridades, reafirmando que a grande obra não é a obra grande e sim a obra necessária.
Neste aniversário de um ano do programa médico de família, mais que louvar a iniciativa, e parabenizar os dedicados profissionais da área, é preciso lutar para que ela seja melhorada e ampliada. Para que não aconteça, como aconteceu este ano, na Zona Rural, onde o médico de família, que morava nos distritos, de lá foi sacado e removido, removendo-se com ele as chances de uma vida melhor para milhares de londrinenses.
- LUIZ EDUARDO CHEIA é secretário institucional do PT/PR e ex-prefeito de Londrina





