Médico compara família a condomínio
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sábado, 19 de julho de 2003
Luka Morais<Br>Reportagem Local 
As relações familiares podem ser modificadas e as pessoas podem assumir responsabilidades como se cada um fosse síndico de si mesmo. É o que defende o neurologista e neurocirurgião Antonio Carlos Costardi, diretor municipal da Saúde Mental da Prefeitura de Taubaté (SP) e autor do livro ''Um condomínio chamado família''. Costardi esteve em Londrina fazendo palestra e ministrando curso para educadores.
O neurocirugião, que supervisiona instituições de assistência a dependentes químicos e alcoólicos, entende que numa relação familiar cada pessoa tem seu espaço não só físico e que existe uma área comum onde devem ocorrer as trocas de afetividade, de conhecimento, de experiências. Para ele, os ''moradores'' não devem abrir mão das possibilidades de crescimento pessoal, anulando-se, distanciando-se de suas expectativas e desejos, perdendo sua identidade. ''Este é um fator de desestruturação das relações familiares, onde os vínculos não se dão. Onde existe quem manda e quem obedece'', afirma. E conclui: ''Essa relação já é falida. Não há trocas''.
O caminho a ser seguido, na opinião do médico, é cada um repensar sua própria história e reestruturar sua identidade e seus vínculos familiares. Nesse sentido, diz Costardi, o ato de educar exige formadores de caráter e não agentes de informação. ''Informar é necessário mas toda estrutura educacional - incluindo família, escola, igreja - que não atende o seu papel acaba desencadeando um vazio nessa estrutura educacional como formador do indivíduo'', acredita.
Na opinião de Costardi, os papéis (de pai, mãe, filhos, avós) determinam posturas, que são influências geradoras de representações que substituem sentimentos verdadeiros. O médico vê a necessidade de se romper a situação na qual as pessoas infringem princípios éticos com relação a si mesmas. ''Educar o ser humano é o caminho do autoconhecimento. Requer que as pessoas se libertem do auto-engano, libertem-se de papéis e olhem para si como pessoas, mantendo dentro do possível as relações pessoais e não desempenhando papéis'', defende.
Nesse sentido, o neurologista entende que o filho deve olhar a mãe como ser humano, senti-la como ser humano, como mulher e, desta forma, passará a entender melhor suas limitações, necessidades. A questão, ele observa, não é a nomenclatura (pai, mãe, filho) mas os papéis assumidos, como se houvesse um script ligado a esses nomes a ser seguido. Ele exemplifica citando a mulher que é mãe e há 30 anos vai para a cozinha e faz a comida que os outros gostam sem se perguntar o que ela quer fazer, o que lhe dá prazer e o que a motiva. Costardi sugere um reposicionamento. ''Ela pode e deve continuar fazendo o que faz mas precisa ter consciência do que ela é, de como faz e porque faz. E isso como pessoa e não como a mãe que é obrigada a cumprir esse papel'', analisa.
A ênfase dada pelo médico na questão da consciência tem a seguinte justificativa: ''Tudo o que é feito mecanicamente não acrescenta nada. Você não cresce como pessoa. Isso é se anular''. Costardi compara: ''As pessoas ligam o automático e reproduzem padrões. E isso gera insatisfação e leva à depressão''.
Com a experiência do trabalho feito há 20 anos com portadores de doenças mentais, o neurologista afirma que 98% dos casos que ele atende nessa área estão relacionados a pessoas que têm um comprometimento profundo do humor, do sentimento e do pensamento. ''É preciso ter consciência das coisas que faz e de si naquilo que está fazendo'', destaca.
Para Costardi, educar é desenvolver a consciência de fazer as coisas movido pela vontade, com criatividade. ''Procure você dentro de si mesmo e veja onde ficam as experiências que são feitas na base da obrigação. Noventa por cento são perdidas. Mas aquilo que é feito com prazer fica bem registrado'', atenta. Ele conclui que qualidade de vida é aprender, experimentar, saber. E lembra que a ausência da atitude reflexiva acaba influenciando diretamente na estruturação da pessoa. ''Será alguém que age mecanicamente. Que vai amadurecer biologicamente mas não emocionalmente'', diz.


