Medicina para um novo tempo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 14 de outubro de 2002
José Luis de Oliveira Camargo 
O tema proposto pela Diretoria da Associação Médica de Londrina, para seu 43º Congresso Médico, que acontece de 16 a 19 de outubro no Centro de Convenções Sumatra, traz-nos a reflexões importantes.
Dados da Estação de Pesquisa de Sinais de Mercado, pertencente ao Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, mostram que o mercado de trabalho médico no Brasil está entre os maiores e mais complexos do mundo. À época do levantamento (1997) havia no Brasil cerca de 240.000 médicos em atividade; a cada ano juntam-se a esse contingente perto de oito mil médicos graduados por uma centena de escolas médicas, na sua maioria criadas na década de 60. Esse mercado, agora, no início do século XXI passou a ser alvo de cobiça de empresários da educação, com a frequente e ousada solicitação de aberturas de cursos ligados ao exercício do comércio do ensino.
Esses profissionais formados, via de regra, e como forma de necessidade de sobreviver, têm se vinculado à condição de trabalho sob a forma estatutária, ou como celetistas, ou como funcionários da administração pública. Trata-se de aspecto bastante preocupante, porque de certa maneira restringe de forma importante as condições de crescimento profissional e de ampliação de seus conhecimentos.
O novo tempo, como propõe a AML, exige que o profissional esteja voltado para o crescimento de sua relação médico-paciente, que é o ponto crucial para o sucesso e a manutenção do vínculo. Com a massificação das relações sociais, a relação de confiança associada à qualidade dos serviços modificou as circunstâncias do relacionamento, com o cliente passando a ser usuário e o médico um simples prestador de serviço.
As partes já não se complementam em afetividade; a parca remuneração dificulta que haja emoção na relação pretendida e o diagnóstico apresenta-se como o primeiro risco. O idealizado e pretendido pelo paciente torna-se quase inatingível pelo médico; a interferência de regulamentações, exigências governamentais e da securitização constituem um obstáculo ao bom resultado.
As dificuldades são superáveis pelo exercício do dever de atualização, que é obrigação inerente à responsabilidade profissional. Os médicos sofrem pelo não conhecer, próprio da época da alta velocidade e dos altos fluxos de informação, quase sempre impossíveis de serem absorvidos em sua totalidade; eles não se satisfazem com o compromisso de utilização dos meios: seu objetivo é sempre o bom resultado.
Já não se aceita a onipotência, o exercício da sabedoria absoluta. A doença e sua consequência maior, a morte, são angustiantes e o suposto saber médico é a condição básica para seus enfrentamentos.
Mas, o médico é forte. Sua resistência chega à bravura. O jornalista Alexandre Garcia bem define o que se espera do médico: ''O desprendimento, a sabedoria, a percepção, fazem do médico um mortal incomum. Por isso, antes de tudo, é preciso ter nascido para isso. Quem tiver vocação para super-homem, vira médico...''
JOSÉ LUIS DE OLIVEIRA CAMARGO é ex-presidente da Associação Médica de Londrina e membro do Conselho Regional de Medicina do Paraná


