Medicina de 8 anos: entre a irresponsabilidade e a incúria
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sábado, 27 de julho de 2013
Pedro Gordan 
Incredulidade foi a primeira reação que tive ao serem anunciadas as medidas governamentais que responderiam aos clamores das ruas por uma Saúde melhor.
É incrível que pessoas eleitas e escolhidas para gerir o País e, portanto, presumivelmente alfabetizadas, pudessem em sã consciência exarar tamanhas sandices em tão pouco espaço e tempo. Não é crível que uma presidente da República, um ministro da Educação e um ministro da Saúde tenham se reunido, pensado e escrito medidas capazes de afetar milhões de pessoas sem o menor respeito à inteligência, ao bom senso e à experiência educacional de centenas de acadêmicos e profissionais de respeito, seus concidadãos e patriotas.
Foram irresponsáveis e prepotentes por não ouvirem previamente a Associação Brasileira de Educação Médica ou sanitaristas de respeito e da envergadura do médico Gastão Wagner, professor titular da Unicamp, para não citar as entidades médicas (e ser acusado de corporativismo).
Em vez de proporem o tal segundo ciclo, estágios obrigatórios de dois anos no Sistema Único de Saúde (SUS), e sabe-se lá em que condições, fossem competentes e sanassem as sabidas dificuldades que têm os cursos de Medicina em obter e criar campos de estágio no SUS.
Como? Poderiam criar carreiras de Estado para médicos e preceptores de internato e residência do SUS. Sugerir ainda a criação do internato em três anos sem aumentar o tempo de formação e com competente supervisão e acompanhamento dos estudantes nas unidades de saúde. Poderiam também institucionalizar e implementar os programas governamentais de apoio a docência nos serviços. Outra medida seria aparelhar as unidades básicas de saúde para que, além das atividades assistenciais, possam lá ser exercidas atividades educacionais.
Parece que além de irresponsáveis, são "ruins de conta", pois os cursos de Medicina tendem a ser diminuídos na sua duração e não aumentados. Se saneassem os problemas do sistema de saúde e dos cursos de Medicina, teriam mais médicos ao cabo de seis anos do que ao fim dos oito anos e em fluxo contínuo.
Para os que usufruíram de cursos de Medicina de universidades públicas, um ano de residência adicional remunerada no Sistema Único de Saúde, desde que criadas as condições educacionais para tanto, não parece ser uma proposta absurda, desde que voluntária. Em princípio, não tenho antipatia por esta proposta de um ano adicional para todas as especialidades em unidades de saúde (hospitais secundários, unidades de pronto atendimento, unidades básicas de saúde), ou onde houver garantia de orientação segura para esses residentes. Como as residências, em sua maioria, são pagas pelo governo, nada mais justo. Faz quem quer. Mas a utilização deste ano adicional para cobrir deficiências de mão de obra sem orientação é tão totalitária quanto as propostas atuais da medida provisória do governo.


