MEDICINA - Cirurgia plástica para pacientes com HIV
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 20 de março de 2009
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
A cirurgia plástica não serve somente à estética, tem também a função de reparação no caso de acidentes ou doenças. Durante o X Simpósio Internacional de Cirurgia Plástica, que está sendo realizado neste final de semana em São Paulo, médicos de várias partes do Brasil e do mundo estarão discutindo as técnicas cirúrgicas para pacientes com o vírus HIV.
Considerado o maior evento da categoria da América Latina, o Simpósio conta com quase mil inscritos. O cirurgião Carlos Oscar Uebel é um dos profissionais que coordenarão os debates e nesta entrevista à FOLHA explica quais as aplicações dessa técnica.
Qual a indicação de cirugia plástica para pacientes com HIV? É estética ou reparadora?
É reparadora e estética ao mesmo tempo, porque vem corrigir um dano que a medicação retroviral causa. O chamado coquetel tem como efeito colateral a atrofia da gordura facial, na região das bochechas e das têmporas. Esta atrofia acarreta um aspecto de emagrecimento no paciente, o que torna o rosto esquálido. Efeito contrário ocorre com a gordura abdominal, nas mamas e atrás do pescoço, ou seja, acúmulo de gordura. É um novo enfoque dentro da cirurgia plástica, nós tratarmos esse contorno facial.
Como é a cirurgia?
Basicamente se usa o enxerto de gordura, que se obtém da região interna dos joelhos, onde temos a melhor qualidade de células gordurosas, as chamadas células adiposas.
É comum a procura por essas cirurgias?
A procura ainda não é comum porque o paciente que está tomando essa medicação ainda não sabe destas possibilidades que existem, mas temos observado que em vários serviços hospitalares já está ocorrendo esse tipo de tratamento. Quando o emagrecimento é pequeno, essa atrofia é pequena, então também podemos corrigir por injeções de preenchimento, que pode ser por colágeno e pequenas porções de metacrilato. Mas a preferência, 90%, é a gordura do próprio paciente.
Esse efeito costuma aparecer depois de quanto tempo de uso do medicamento?
Depois de seis meses de tratamento começa a aparecer. É bem rápido. O paciente se sente tratado pelo HIV mas com esse efeito colateral. Cabe a nós darmos uma solução para ele.
As cirurgias são particulares ou o sistema público já faz?
Não só os particulares, já existem os hospitais universitários, da rede pública, que também fazem esse tipo de tratamento porque isso é um fenômeno adverso da medicação. É como o paciente obeso que faz cirurgias bariátricas e depois de emagrecer 40, 60 quilos ele também opera o excesso de flacidez e pele.
É comum pacientes com HIV buscarem as cirurgias plásticas estéticas?
Pacientes portadores do HIV sempre operaram de nariz, mama, abdômen. Tomando os cuidados para não haver contaminação, ele tem todo o direito de fazer a cirurgia plástica que lhe convier.
São necessários muitos cuidados especiais nesses casos?
Sim. Porque você tem que se cuidar para não se contaminar, é o mesmo procedimento para paciente portador de hepatite. A preocupação do cirurgião atualmente nem é tanto com pacientes soropositivos, é mais com paciente portador de hepatite C. A hepatite é um problema, morre mais gente de hepatite do que de Aids hoje. Esse é um cuidado que nós temos que ter sempre, mas não se discrimina um paciente por causa disso.


