Tornou-se comum o caso de remédios que são usados com frequência e de repente se descobre que podem provocar sérios efeitos colaterais. O consumidor tem como se precaver? E medicamentos importados, são melhores do que os nacionais? Fazem o mesmo efeito?
Elisaldo Carlini é psicofarmacologista, diretor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas (Cebrid) e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo ele, remédios importados deveriam ser testados no Brasil e médicos precisam avaliar o risco/benefício de determinadas substâncias.
Os médicos sabem que não há medicamentos sem efeitos adversos. Eles levam isso em consideração na hora da prescrição?
Não sei se todos levam, mas deveriam. Há dois tipos de reações adversas: as que sempre se espera, como por exemplo, quem toma analgésico tipo morfina sabe que vai ter prisão de ventre. Há as reações que são inesperadas, que ocorrem muito raramente, uma a cada 10 mil, 100 mil pacientes. Essas geralmente pegam os médicos de surpresa. Embora sejam feitas advertências, a bula diga que em tais condições pode ser perigoso, o médico avalia e acha que o medicamento é importante para aquela doença, que é necessário receitar e o benefício que irá ocorrer é superior a um risco tão longínquo.
Como o senhor vê esses medicamentos de última geração apresentando tantos problemas?
Não me preocupo tanto com esses medicamentos de última geração, que estão produzindo reações que anunciamos todos os dias nos jornais, porque são reações muito sérias, mas muito raras de aparecer e denunciadas com eficiência. O que me preocupa mais são os medicamentos que possuem toxicidade e estão sem controle, como alguns anti-inflamatórios. São produtos úteis mas com um certo grau de toxicidade. Precisariam se tomar cuidados mais adequados.
Grande parte dos medicamentos usados no Brasil são importados e por isso não foram testados em brasileiros...
Essa é uma das graves consequências do Brasil não ser um país totalmente desenvolvido nessa área. O que está ocorrendo é que na realidade, cada vez mais, observamos reações adversas de extrema seriedade, que são essas de um para 100 mil, 500 mil. É um problema enorme na medicina, que não tem solução aparente, a não ser o médico ser extremamente cauteloso.
Esses medicamentos importados deveriam passar por testes no Brasil?
Acho que o ideal é todo medicamento sem exceção, passar por teste no Brasil. Isso iria encarecer o preço do medicamento, mas não vejo muita saída porque o brasileiro tem condições especiais, a genética é diferente, temos uma mistura enorme de raças, a nossa alimentação, o nosso clima é diferente. Tudo isso pode fazer com que o medicamento aja mais ou menos do que o desejável. Na Índia, por exemplo, há vários trabalhos mostrando que o indiano típico é mais sensível a alguns medicamentos e a dose precisa ser menor.
Muitas pessoas recorrem a medicamentos naturais, chás, achando que são inofensivos e por vezes até por conta do preço dos sintéticos...
Talvez por essa razão se use mais medicamentos naturais, achando que não têm efeitos adversos. Mas é uma crença falsa. As plantas também possuem toxicidade. Outra coisa: muitas vezes os medicamentos que são utilizadas nos postos do Estado são comprados por aquela maldita lei do quanto mais barato, melhor. Não posso comprar nenhum medicamento de um laboratório que faz uma coisa mais ou menos. Medicamento precisam ser de primeira qualidade.
Quando o senhor fala em preço, pensamos nos genéricos ou similares...
O fato do medicamento ser genérico e por isso mais barato não implica que ele seja de má qualidade. Onde se economizou foi obviamente na propaganda, no tipo de embalagem. A parte técnica precisa ser de boa qualidade. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) mantém há 10 anos um sistema de inspeção das fábricas no Brasil, para garantir que está tudo em ordem.
Quais os problema mais comuns nas farmácias?
A farmácia deve ter só um tipo de medicamento, aquele aprovado pelo Ministério da Saúde, e, portanto, medicamento de boa qualidade. Mas na farmácia exite um outro problema, a ''empurroterapia''. Você tem ainda hoje laboratórios com a chamada bonificação. O laboratório vai na farmácia, vende 12 produtos, emite nota de 12 e deixa 18. Ou seja, a farmácia ganha seis, ela contabiliza somente 12. Isso é um prejuízo para o governo, porque deixa de recolher impostos, e a farmácia tem todo o interesse em empurrar esse medicamento, porque está dando lucro maior que os demais. Muitas vezes o próprio balconista pode receber um prêmio especial se vender.

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