Mea culpa Maria Lucia Victor Barbosa Num gesto inusitado e sobretudo corajoso o papa João Paulo II pediu perdão pelos pecados cometidos pela Igreja Católica ao longo dos seus 2000 anos de existência e, nesse sentido, o pontífice escreveu na bula Incarnationis Mysterium que institui o jubileu do ano 2000: ‘‘Como sucessor de Pedro, peço que a Igreja se ajoelhe diante de Deus e implore perdão pelos pecados passados e presentes de seus filhos’’. Para melhor fundamentar a intenção expiatória da Igreja, o Vaticano formulou um documento de noventa páginas intitulado Memória e Reconciliação: a Igreja e as culpas do Passado. O texto foi preparado por 30 teólogos de diversos países sob a direção do cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (antigo Santo Ofício da Inquisição) e apresentado ao mundo na terça-feira passada. Com o propósito de curar ‘‘feridas históricas’’, o documento da Comissão Teológica Internacional pede perdão pela intolerância, pela violência, pela corrupção, pecados que se evidenciaram através da Inquisição; das cruzadas; das divisões entre católicos, protestantes e ortodoxos, da perseguição aos judeus (sendo que não ficou devidamente esclarecida a posição do papa Pio XII durante o holocausto); da evangelização forçada dos povos colonizados que não respeitou suas culturas e crenças, etc. Evidentemente, há nesse ato de confissão por parte da Igreja Católica, além de uma louvável autocrítica, o desejo de se reconciliar e de se aproximar de outras igrejas para reassumir seu papel de eclesia, ou seja, sua abrangência universal que vem perdendo aos poucos para outras instituições da fé. Na verdade, o enfraquecimento do catolicismo se deu de forma paradoxal, na medida em que foi seu imenso domínio político e econômico que acabou por minar a força ao mesmo tempo espiritual e temporal da Igreja. De todo modo, o papa João Paulo II deu um exemplo importante de humildade e nada cobrou de outras instituições, pois é preciso lembrar que a muitas delas não faltaram também a intolerância e a violência, e que muitos mártires cristãos sucumbiram por haverem sustentado sua fé. E se é evidente que o mea culpa eclesiástico não pode apagar as consequências do mal infringido, pelo menos pode servir de alerta para que os mesmos erros não sejam cometidos. Mas será que a Igreja, malgrado a edificante intenção do seu atual pontífice, resistirá à tentação de se manter livre das ações políticas que ao longo dos séculos tantas vezes a fizeram incidir no erro dos comportamentos mundanos? É interessante lembrar que, se a atual fé de um católico em Jesus deve ser a mesma da dos primeiros cristãos, o grupo inicial formado pelo Mestre e seus 12 discípulos se modificou ao longo do tempo. Já no século II houve a necessidade de unificar o cristianismo que se dispersava em várias comunidades com orientações diversas. Ao mesmo tempo, o crescimento da nova religião trouxe a necessidade de dotá-la de uma hierarquia e de uma multiplicidade de órgãos para atender adequadamente sua expansão. E como se isso não bastasse, concílios produziram dogmas e unificaram ensinamentos, transformando a Igreja Católica na primeira experiência de globalização bem-sucedida. Quanto à América Latina, recorde-se o escritor venezuelano Carlos Rangel. Segundo este, a Igreja Católica é um dos fatores mais responsáveis pelo que é e pelo que não é a América Latina. Afinal, desde o início e até meados deste século, o catolicismo foi ao mesmo tempo o cérebro e a coluna vertebral das sociedades latino-americanas. Lembra inclusive Rangel, ‘‘que a Igreja Católica alcançou com a evangelização do Novo Mundo americano o seu maior sucesso de proselitismo desde a Antiguidade, no preciso momento em que a metade do Velho Mundo era sacudida pela Reforma’’. Esta foi a razão mais que suficiente para que a Igreja considerasse a América Latina como sua filha preferida, voltando-se para ela de forma muito particular. Observe-se que não faltaram na evangelização latino-americana os sacerdotes revolucionários, descendentes espirituais do famoso frei Bartolomeu de Las Casas, considerado o maior de todos os defensores das populações nativas do Novo Mundo. Antes, porém, de se converter, Las Casas foi um encomendero escravocrata, que não titubeava em participar de invasões de aldeias indígenas, para a captura de escravos que seriam usados na sua encomenda ou vendidos com bom lucro. Algo que traz à mente de alguma forma o personagem Dom Gerônimo da excelente minissérie A Muralha. Convertido e assumindo a postura de defensor dos indígenas, dos quais passou a dizer que ‘‘preferiam ir para o inferno a se encontrar com os cristãos’’, Las Casas chegou a interceder junto a Carlos V para que fosse substituída a escravidão dos índios pela escravidão dos negros. Na linha de Las Casa pode-se citar os mexicanos Miguel Hidalgo, pároco de Dolores, e o padre José María Morelos, caudilhos da fé no século XVIII. Hidalgo liderou os exércitos de camponeses empunhando o estandarte de Nossa Senhora de Guadalupe, e sobre ele disse o historiador Turbeville, que ‘‘era homem de destacadas qualidades intelectuais mas não muito escrupuloso em questões de comportamento moral’’. Hidalgo acabou sendo denunciado duas vezes pela Inquisição e em 1811 foi derrotado e capturado pelas autoridades civis mexicanas que o tiveram sob sua custódia e depois o executaram. Quanto ao padre Morelos, que sonhava com uma reforma agrária em que a maior proprietária rural do México, a Igreja, distribuiria suas terras aos camponeses, não teve melhor sorte. Preso no cárcere da Inquisição, foi declarado ateu e sequaz de Hobbes e Voltaire. Por fim, foi destituído do seu sacerdócio e entregue como traidor do Estado às autoridades civis, que de antemão já haviam decidido sua execução. O mea culpa da Igreja é nobre e edificante, mas tomara que não funcione como o sacramento da confissão através do qual não há problema em pecar porque é sempre possível ser facilmente perdoado. - MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora, professora universitária em Londrina. e-mail: [email protected]