Me engana que eu gosto - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de setembro de 1997
Maria Lucia Victor Barbosa 
Muitos devem se lembrar de um programa de televisão no qual apareciam estórias malucas, e que sempre terminava com Jack Palance dizendo: Acredite se quiser. Pois penso que a maioria dos que assistiam ao tal programa acreditava piamente nas estórias, porque as pessoas precisam acreditar em coisas. E quanto mais espantosas as coisas são, mais facilmente o ser humano acredita. Assim, se alguém disser que pondo garrafas cheias de água em cima da caixa do medidor se poderá economizar energia, muita gente acreditará. Aliás, a crença nesse método tem levado donas de casa de Londrina e região a se lançarem meticulosamente à tarefa de adornar seus medidores com grandes garrafas de plástico cheias de água até a boca. E se um guru radiofônico recomendar a necessidade de se plantar bananeira às três da madrugada sobre o relógio de luz, com o mesmo objetivo de economia, os poucos transeuntes das horas tardias da noite sem dúvida haverão de presenciar um estranho espetáculo: sisudos senhores e senhoras em pijama e camisola, em posição de bananeira sobre seus medidores.
Formam-se pois, facilmente, crendices populares, como aquela que ensina que mandruvás têm o poder de engravidar mulheres. Minha própria ajudante doméstica cultiva esse tipo de terror, e temo perder uma preciosa auxiliar por conta dos mandruvás que infestam uma palmeira existente no meu jardim.
Interessante é que de tanto acreditar na mentira as pessoas também passam a mentir, dando asas à imaginação ou ampliando os fatos até deformá-los. Isso ocorre, inclusive, na imprensa, onde geralmente estão estampados não os acontecimentos reais, mas as versões exageradas dos mesmos.
Em todo caso, diante da forte e incontestável inclinação humana de acreditar no absurdo ou na mentira, torna-se claro por que é tão fácil para certos charlatães ganhar a vida com a exploração da religiosidade alheia. Do mesmo modo, entende-se por que certos tipos de indivíduos ganham eleições, ou como é gratificante para os perdedores fazer oposição aos que conquistaram o poder. Afinal, como disse Maquiavel, o mestre da política, a natureza dos povos é inconstante.
Mentira e absurdo são, portanto, os elementos dos mitos que vão se construindo no imaginário popular. Em decorrência disso, os mitos se tornam mais fortes do que a verdade. Mas o que há de se fazer se a humanidade precisa de líderes, de santos e de heróis? E quando não os há, porque afinal são espécimes raros da nossa fauna, não tem importância, basta fabricá-los. Sim, porque hoje líderes, santos e heróis são fabricados, notadamente pela televisão, na medida perfeita da necessidade que o vasto público tem de acreditar em imagens. Aliás, vamos nos tornando rapidamente uma sociedade virtual, onde o homem corre o risco de se tornar apenas uma miragem percebida nas televisões e nos computadores.
Diante do que ocorre, é espantoso verificar o paradoxo que envolve o mundo nesse final de século: apesar de todo o avanço tecnológico, de todo o conhecimento à disposição do homem, a humanidade como um todo permanece ignorante e, como tal, inclinada a acreditar em falsos mitos, exatamente como no passado.
No caso do Brasil, tomando-se o campo da política, que é o que melhor exemplifica a mitificação da realidade, note-se que dois mitos se transformaram nas alavancas mais fortes e mais utilizadas por aqueles que desejam se alçar ao poder: o nacionalismo xenófobo e o populismo exacerbado. Infelizmente, esses dois cancros vêm minando a vida da nação e impedindo o povo de amadurecer socialmente e de progredir economicamente.
É preciso explicar que uma coisa é patriotismo significando amor à Pátria, sua defesa, o orgulho de a ela pertencer, algo que só esboçamos quando as coisas vão bem ou estamos em país estrangeiro e vemos tremular nossa bandeira. Mas mande-se cantar o hino nacional e quase ninguém saberá de cor sua letra. Pergunte-se sobre nossas vastidões, nossas regiões, sobre o que faz e como vive nossa gente, como se deu nossa história. Muito poucos responderão. Mas muitos se entusiasmarão com um ridículo nacionalismo, mais xenofobismo do que qualquer outra coisa, e que vem misturado com dor de cotovelo, porque afinal de contas não conseguimos ainda progredir como aconteceu em países hoje desenvolvidos.
Já o populismo é a artimanha mais usada nas campanhas. Mas justamente esse falso solidarismo aos pobres é que os mantém pobres, que os torna dependentes do pai Estado, que os impede de tentar resolver seus problemas porque contam com dádivas caídas do céu ou das autoridades sem que precisem se esforçar. Ao mesmo tempo, o populismo acentua hoje o clima de impunidade em que se vive, sendo o exemplo mais clamoroso disto o movimento dos chamados sem-terra, já desvirtuado pela violência.
Mas o que importa? Enquanto as pessoas seguirem colocando garrafas dágua nos medidores será fácil governar, pois o refrão daquele sambinha continuará sendo o espelho da personalidade nacional: Me engana que eu gosto.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga


