Mazza de A a Z - Regina Kracik Teixeira
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de novembro de 1998
Regina Kracik Teixeira 
A de Academia. Toma posse na Academia Paranaense de Letras, nesta terça-feira, em cerimônia a ser realizada no Centro de Convenções de Curitiba, o jornalista Luiz Geraldo Mazza. Ou seja, alguém que, como poucos, nela merece assento - entre outros motivos, porque nunca buscou instalar-se por lá. Há um momento, porém, em que o mérito, por sobejar, torna inevitáveis as correspondentes honrarias.
B de beletrismo. Eis um vício que ele nunca cultivou. Possui estilo - e dos mais vibrantes - porém isso não são fogos de artifício. Há quem tenha estofo, tutano, princípios. Há quem não os tenha. A diferença faz toda a diferença.
C de Curitiba. A essa altura do campeonato, Mazza é a cara de Curitiba, o jeito do Paraná, que já não podem passar sem ele. Alguém precisa, de vez em quando, dizer umas boas verdades a esta capital e a este Estado. Para tanto, Mazza está sempre a postos. É o jeito dele.
D de dignidade, de decência. Contundente não raro ele é. Seu lastro, porém, é o da dignidade e da verdade que a tanto o autorizam.
E de estilo, de enciclopédia. Se, como alguém já disse, o estilo é o homem, então acharam o homem certo para ocupar a cadeira de número 20 da Academia. De resto, Mazza é enciclopédico, recipendário de histórias, casos e vivências que admiravelmente traduz e tempera em letra impressa.
F de Folha. Na Folha de Londrina/Folha do Paraná, ele atuou de 68 a 80, e por aqui também fez escola, conquanto inimitável. Retornou à casa em 92 e nela permanece, ocupando o espaço da página 2, aqui ao lado destas linhas, que insuficientemente mas carinhosamente buscam retratá-lo.
G de generosidade. O tempo - é o próprio Luiz Geraldo quem diz - tornou-o mais generoso. Teimosamente generoso, eu diria.
H de hárpia. Mazza (um colunista aqui da Folha já o disse, e reproduzo) é hárpia com garras de açúcar-cande.
I de integridade, de independência, de adversários, de inevitabilidade. Inevitável que Mazza fizesse inimigos, pois isso é ônus da sinceridade. Amigos, no entanto, fez muito mais, e sabe conservá-los. Em qualquer caso, não há quem lhe não reconheça a integridade e a independência - virtudes maiores do que pensa, diz e escreve.
J de Jornalismo. São 48 anos deste ofício, apenas dois a menos que a Folha, e Mazza, quanto à verve e como Folha, continua, a cada dia, novinho em folha.
L de Literatura. Luiz Geraldo soube, como poucos o souberam, transcender as distinções entre Jornalismo e Literatura, fazendo de ambos mescla e bem-sucedido exemplo.
M de Mestre. Ele o é em todas as letras - e na vida. Aprender com Mazza é um privilégio.
N de não. Mazza também é mestre em, redonda e decididamente, dizer não. Faz isso com tanta habilidade que às vezes não parece.
O de ônibus. O Mazza cotidiano. O da fila de espera do transporte coletivo. O Luiz Geraldo transeunte, alheio a ostentações, simples, colhendo histórias entre a gente simples.
P de poder. Os afagos do Poder não o alcançaram. Mazza tem sempre um pé atrás - em distância crítica e segura.
Q de questão, de questionamento. Nele, questionar é postura, prática diária, hábito, questão de princípios.
R de reconhecimento. Vide Academia; vide as demais letras.
S de sobrancelhas. O tempo eriçou-lhe as sobrancelhas. Assim, Luiz Geraldo ficou mais parecido com ele mesmo.
T de tempo. E põe tempo nisso! Se, por um lado, tornou-lhe grossas as sobrancelhas, por outro, afiou-lhe a pena.
U de ubiquidade. Ou quase. Mazza, de alguma forma, tem estado em toda parte. O espírito tem esse dom de viajar.
V de valores. Ele os têm robustos. É o que fortalece. O que o faz admirado e respeitado.
X, o da questão. Mazza detecta-o, aponta-o, investiga-o. Faz isso há quase meio século.
Z da zênite. Aonde se pode chegar. Aonde ele chegou, com todas as letras.
- REGINA KRACIK TEIXEIRA é jornalista e diretora da Regional de Curitiba da Folha do Paraná


