Mazelas da política
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de julho de 1997
Fernando José Dias da Silva 
Mantenha o sangue frio. Não adianta perder a calma. A revolta está na porta da sua casa, mas não adianta fazer nada. Não adianta chamar a polícia, porque é a polícia que está insubordinada, não acata mais a hierarquia, não aguenta mais viver com salário de fome, a paciência já está esgotada. Governadores e deputados estão sitiados nos Palácios e nas Assembléias Legislativas, guardadas pelo Exército armado até os dentes.
Foi assim em Belo Horizonte. Está sendo assim em Maceió. Está sendo assim em Recife. Um movimento que se alastra por vários Estados que estão quebrados por causa, muitas vezes, da malandragem dos governadores, mas também pela falta de caixa, de arrecadação e, principalmente, de competência e de atenção aos problemas sociais que estão nos calcanhares desses governantes, mas eles fingem que não vêem.
É como aquela voz de moça, quase mecânica, que fala com você pelo telefone. Promete resolver o seu problema, diz que vai encaminhar o assunto o mais rápido possível, mas não acontece nada. O governo é que nem esses serviços de atendimento ao consumidor de grandes empresas: vende uma eficiência que não tem.
O governo faz festa para os três anos de Real. O governo vive no melhor dos mundos. E a renda dos 8% mais ricos continua a crescer sobre os 40% mais pobres. A massa salarial paga pela indústria diminuiu 7,4% de 95 para 96. O gasto per capita em saúde caiu 7,6% em 96. A população de rua de 94 para 96 subiu 17%. E em São Paulo o desemprego gira em torno dos 16%.
Agora eu pergunto: com todos esses dados, a taxa de democracia aumentou nesses últimos três anos?
E quem responde é o professor Emir Sader, do Departamento de Sociologia, da USP: O tema da democracia passou a estar ausente da pauta das elites dominantes desde que elas conseguiram impor a prioridade na questão do déficit fiscal, em lugar da justiça social.
O professor Emir Sader é cáustico. Pelos parâmetros de análise dos governistas seguramente ele é um fracassomaníaco. Mas vamos acompanhar o seu raciocínio: A questão da reforma do Estado, por exemplo, não está associada à da sua democratização, mas a do equilíbrio fiscal e da redução de custos - à custa, como sabemos, dos mais fracos, das políticas sociais e dos salários do funcionalismo, e não dos ricos, aquinhoados com o Proer, com as isenções, com os subsídios, os perdões fiscais, a conivência com a sonegação, os créditos.
Os tucanos de Brasília ouvindo isso só podem classificar o professor como pertencente à vanguarda do atraso. Mas será que a reforma administrativa e a reforma da Previdência estão sendo feitas mesmo para se buscar maior eficiência, no sentido de beneficiar a população?
É claro que nos dois projetos as reformas são amplas, mas a ênfase é no corte. No corte de pessoal e no desmantelamento da previdência pública em benefício da previdência privada. Isso qualquer criancinha sabe.
Foi o caso da tentativa de barbarizar velhinhas viúvas. Aquela Medida Provisória proibindo as pessoas de acumular pensão e aposentadoria ao mesmo tempo. Esse é o exemplo mais cabal do que pode fazer um tecnocrata que acorda neurastênico. Até que se prove o contrário, não houve má fé. Não se pode conceber o governo querendo barbarizar velhinhas só por prazer. Proibi-las de comprar remédio, pagar aluguel só isso. Porque mesmo juntando pensão e aposentadoria o resultado é uma mixaria.
O que aconteceu foi que algum gênio das finanças públicas descobriu que as pensões e aposentadorias estavam aumentando demais. Para essa turma é fácil resolver um problema desses: basta cortar horizontalmente. Basta proibir todo mundo de acumular aposentadoria e pensão. É que esses tecnocratas não vêem que por trás dos números existem rostos, pessoas de carne e osso que trabalharam a vida inteira e agora têm o direito de receber, mesmo que seja uma miséria, para não passar seus últimos dias debaixo da ponte.
E é aí que entra a intervenção política. Por mais que os políticos estejam desacreditados foi preciso que eles entrassem no assunto para acabar com essa história de fazer mau a velhinhas.
Todos sabem das mazelas da política. Mas ela ainda continua sendo o melhor meio de evitar delírios de tecnocratas. O presidente Fernando Henrique precisa prestar bem atenção nisso.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo


