Maurício diz que agressão parte do PFL
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domingo, 23 de julho de 2000
Rubens Burigo Neto De Curitiba 
Folha Existe a expectativa de que as oposições façam uma campanha agressiva nestas eleições, principalmente o PMDB. Como o senhor encara isso?
Maurício Eu não chamo a nossa política de política agressiva. Agressividade é uma adjetivação que se procura atribuir a nós, de maneira a nos desautorizar. Na verdade, agressividade, hoje, é do governo Lerner e Taniguchi. Que atropela trabalhadores, que usa a força para tentar conter manifestações sociais legítimas, que acabou de uma maneira ou de outra envolvido na morte de um trabalhador sem-terra, que está batendo nos servidores da Justiça, que agride os professores nas suas manifestações, que atropela direitos.
Folha Como assim?
Maurício Este governo é agressivo. Por mais que seus governantes possam aparecer na televisão, na mídia, adocicados, na verdade a sua ação política não é apenas agressiva, é violenta. Da nossa parte, nós temos procurado mostrar esta violência. Quando eu vou ao Sabará (bairro da Cidade Industrial de Curitiba) e lá eu encontro cidadãos amedrontados pela ameaça que a empresa terceirizada pela Cohab está fazendo, de que vai passar o trator sobre as casas das pessoas se elas não conseguirem saldar suas prestações atrasadas, isto é violência, isto é agressividade.
Folha O prefeito Cassio Taniguchi disse à Folha, na semana passada, que considera a propaganda dos adversários dele uma agressão à inteligência dos eleitores. No entender do PMDB seria agressivo esconder esta realidade?
Maurício Eles falam isto para tentar fazer com que a oposição fique inibida.
Folha O senhor quer dizer que o PMDB vai tentar mostrar estas falhas sociais que, na sua opinião, estão acontecendo?
Maurício Nós procuraremos estar com a nossa campanha à altura da realidade que estamos vivendo. A realidade é muito dura e está sendo encoberta para que se consiga preservar o poder das pessoas que estão no governo hoje e nós vamos desnudar esta realidade. Nós faremos uma campanha profundamente verdadeira, mostrando para a população de Curitiba as responsabilidades dos atuais governantes, as omissões, os equívocos, os erros daquilo que, na nossa opinião, é a pior administração que a cidade já teve. Que se sustenta, exclusivamente, pelo uso exagerado, desmedido, da mídia. Por exemplo: muito está se comentando do desastre ecológico provocado pelo vazamento de óleo da Petrobras. Mas é preciso lembrar a sociedade que todos os demais rios de Curitiba estão há muito tempo poluídos. Não por petróleo, mas esgoto. O esgoto da cidade é todo ele canalizado para nossos rios que estão, sem nenhuma exceção, mortos. Onde estão os organismos ambientais para exigir do poder público o enfrentamento definitivo da questão ambiental da cidade? As nossas taxas de saneamento são baixíssimas, ainda que se venda a idéia de que Curitiba é uma cidade ecológica e ambientalmente correta. Isto é vergonhoso.
Folha O que houve de tão ruim nesta administração?
Maurício O prefeito não enfrenta os problemas reais que a população está vivendo. Ele tem o rabo preso com a Sanepar, com o governo do Estado, então não pode cobrar ou exigir nada da Sanepar na questão do saneamento. Ele não pode enfrentar o problema da violência e da segurança pública. Como o Cassio vai falar do absurdo que foi a implantação dos totens, que estão completamente abandonados? Ou do ridículo que está sendo o patrulhamento da Polícia Militar com estas motoquinhas, que estão todas para consertar e estão empilhadas nos depósitos da cidade? O problema da violência não está sendo enfrentado de maneira adequada. A violência e o desemprego são os problemas dos quais as pessoas mais reclamam. O prefeito não pode se manter alheio.
Folha Com quatro candidatos de oposição ficará mais fácil mostrar esse lado?
Maurício Todos os quatro candidatos sem falsa modéstia me incluo entre eles reúnem condições políticas e morais para administrar esta cidade. Todos nós temos uma história política limpa, honrada, integramos partidos consolidados. Já apoiei o Vanhoni para prefeito de Curitiba (em 1996) e seria muito cínico de minha parte falar mal dele. Ao contrário, tenho por ele uma admiração muito grande. Também já apoiei o Forte Netto quando ele foi candidato a vice-prefeito na chapa do deputado Maurício Fruet (que já morreu). É um planejador urbano qualificado, um arquiteto preparado. Melhor ainda conheço o Eduardo, que é meu irmão, com quem eu tenho muita afinidade, não apenas pessoal como política também. O Eduardo também integra hoje uma candidatura, um partido de oposição. Ele também é merecedor de todo meu respeito do ponto de vista político. Isto me faz crer que nós vamos ter, do lado das oposições, um debate muito sério, muito consistente sobre a cidade de Curitiba e a população deve ganhar muito com isso. Agora, evidentemente, confio muito que pelo fato de eu pertencer a um partido mais estruturado, mais forte, com mais tradição na cidade que já ocupou duas vezes a prefeitura e o com apoio do senador Requião, eu devo avançar mais que os outros candidatos. Enquanto isso, o Cassio Taniguchi tem como cabos eleitorais o Belinati, a Emilia, o Rafael Greca, o Candinho, o Noronha, o Onaireves Moura. Não descarto, que nesse quadro que está posto a situação que estamos vivendo hoje na prefeitura, o envolvimento dessas pessoas com toda sorte de irregularidades e desmandos nós possamos ter surpresas e o Cassio Taniguchi sequer chegue a condição de disputar o segundo turno. Tenho dito que depois da prisão do Onaireves, se, de repente, pudéssemos imaginar que a Justiça começasse a trabalhar mais depressa, talvez a gente ganhasse esta eleição por WO. Porque no dia da eleição muita gente que está do lado de lá poderia estar preso.
Folha Com a desistência do senador Roberto Requião e com quatro candidatos de oposição, ficou mais difícil evitar o segundo turno na eleição de Curitiba?
Maurício É muito difícil falar sobre hipóteses. Eu tenho confiança de que se o Requião fosse nosso candidato nós ganharíamos as eleições, não tenha nenhuma dúvida disso. Mas o Requião tem o compromisso dele no Senado. É hoje uma das lideranças mais importantes da oposição no Brasil. Nós tínhamos no partido a possibilidade do nome do Gustavo (o deputado federal Gustavo Fruet), em condições de enfrentar o Taniguchi. Mas entendemos que tínhamos as condições como as pesquisas já estão mostrando de encarar esta eleição de frente e vencê-la.
Folha Existe a possibilidade do senador vir a substituí-lo, ou a seu irmão, até o dia da eleição?
Maurício Deixe que eles pensem o que quiserem. Que fique o Cassio com esta pulga atrás da orelha. Ele deve morrer de medo que isto aconteça.
Folha Onde o senhor tem observado esse sentimento de oposição ao qual o senhor se refere e que poderia levar o PMDB ao segundo turno? O senador Roberto Requião tem participado de sua campanha?
Maurício Em nossos arrastões, como chamamos as caminhadas que fazemos por todos os bairros de Curitiba. Eu tenho conversado com centenas e centenas de pessoas e sinto que elas estão dispostas a mudar. É uma manifestação espontânea de solidariedade à oposição de um modo geral e muito particularmente à figura do senador. Ele é visto como o representante mais sincero, combativo e preparado das oposições. E o PMDB conseguiu encarnar com a mesma garra através da combatividade de sua militância a idéia de ser um partido verdadeiramente oposicionista. Sinto nesses contatos que temos feito, uma vontade muito grande de mudanças que se contrapõem até aos números das pesquisas até o momento publicadas.
Folha E quais seriam as propostas do PMDB para atender a estas reivindicações?
Maurício Nós estamos apresentando para a cidade uma série de medidas que, acreditamos, poderão ter um impacto sobre a geração de empregos. Que visam a desburocratização de todo o processo de constituição de micro e pequenas empresas. Estamos estudando medidas que diminuam as restrições da legislação de uso do solo, justamente para facilitar a implantação de pequenos negócios nos terrenos das próprias residências das pessoas e, principalmente, a criação do Fundo Público de Aval, uma evolução da idéia do Banco do Povo. Este fundo vai ser oferecido como avalista de micro-empreendedores, perante os bancos privados ou estatais. Os projetos seriam analisados pelo poder público e, na medida em que sejam viáveis, o fundo poderá avalisá-los através de financiamentos com taxas de juros reduzidas. São financiamentos que nós imaginamos em até R$ 500,00, viabilizando um pequeno negócio e criando condições para que ele gere empregos. Nós queremos que Curitiba se torne a cidade do emprego.
Folha E os projetos para as outras áreas?
Maurício Vamos criar uma Secretaria de Segurança no município, que vai ter a responsabilidade de constituir um serviço de inteligência para elaborar um planejamento da operação das polícias Civil e Militar. Pretendemos dividir Curitiba em 800 distritos geográficos para descentralizar a ação da polícia e deixá-la muito perto das pessoas. Também precisamos retomar as políticas sociais em Curitiba. A saúde pública está catastrófica. Nossa gente está desesperada pela falta de remédios, de exames, de especialistas, pelas dificuldades de internamento. Há uma estagnação na política educacional. A implantação do ciclo básico foi feita de forma açodada, sem os necessários complementos. Muitas crianças estão chegando à quinta série analfabetas. Imaginamos estabelecer uma articulação com as instituições de ensino superior da cidade, públicas e privadas, e criar um instituto superior de educação para qualificar permanentemente os profissionais de educação do município gratuitamente, com muita qualidade e custos razoáveis. Hoje não temos um projeto pedagógico consistente na secretaria municipal de educação e isto precisa ser retomado. Estamos andando para trás. O prefeito hoje coloca algumas estações-tubo pela cidade, recapa as ruas do centro e tenta, com isso, iludir a população de que é um prefeito que está realizando obras. Os problemas da cidade são óbvios: desemprego, violência, meio ambiente, educação. E nada do que é feito hoje toca nestes problemas. Repito: é a pior administração em Curitiba.
Folha O senhor acredita que o ciclo de poder do grupo lernerista está se encerrando?
Maurício Não é à toa que eles colocaram outdoors pela cidade dizendo que Curitiba é uma boa cidade para se fazer negócios. Isso parece um escárnio com a população. As pessoas estão sem remédios nos postos de saúde. Parece que eles estão debochando. Mas, no entanto, não. Eu acho que eles estão sendo sinceros. Na verdade é o que eles pensam da vida, usam o poder público para fazer negócios. São homens de negócios, gerindo seus próprios negócios através da administração pública. Eles não têm nenhum compromisso social, nenhuma noção do que é a gestão pública. São negociantes no governo. É uma promiscuidade dos interesses privados dos donos das empresas de ônibus, de lixo, de informática, de merenda escolar, que alugam automóveis com o governo.
Folha Assumindo a prefeitura, o PMDB faria uma revisão de todos estes contratos? Seria sua primeira atitude como prefeito?
Maurício Não. A primeira coisa que eu faria, é elementar, seria comprar remédios para a população. Os contratos com a iniciativa privada deveriam sofrer uma profunda auditoria, evidentemente, dentro da lei. Prioridade hoje é enfrentar os problemas da cidade.
Folha Como é ser candidato num momento em que os políticos estão em baixa?
Maurício A sequência de escândalos que todo dia está estampada nas páginas dos jornais e na televisão, os episódios recentes envolvendo a assessoria do Fernando Henrique Cardoso, os escândalos aqui no Paraná, as denúncias que nós mesmos temos feito sobre a Prefeitura de Curitiba, em relação ao aluguel dos automóveis, tudo isso isso gera na população uma revolta muito grande. E, como as informações chegam de maneira truncada, a população acaba tendendo a generalizar. Existe uma vontade muito grande de mudança e a gente percebe um sentimento oposicionista muito claro. As pessoas estão saturadas desse tipo de política que é feito no País, no Estado e no município. A dificuldade que nós temos é que, em função dessa limitação da informação, a tendência das pessoas é nos confundir a todos como políticos.
Folha Na sua opinião, qual seria a parcela de culpa da imprensa local e nacional?
Maurício A mídia, no Brasil, é a grande responsável por este estado de desinformação.
Folha O senhor acredita, então, que a ligação econômica entre o poder público e os meios de comunicação está contribuindo para isto acontecer?
Maurício A coisa mais grave certamente é essa. É o fato da nossa mídia ser subordinada ao interesse dos grandes grupos econômicos e dos governos, que são os grandes financiadores dos veículos de comunicação em geral. Além disso, há também talvez até como consequência disso uma posição ideológica da imprensa. Dos proprietários, dos donos, daqueles que influem na política editorial dos veículos que, de modo geral, são ideologias conservadoras, bastante retrógradas, que se somam aos interesses destes grandes grupos. Infelizmente isto faz com que a população não consiga distinguir efetivamente o que ocorre na política, as diferenças entre os partidos e as pessoas. Observe o meu exemplo: fui um deputado que teve uma atividade bastante intensa no Congresso; fui o parlamentar que apresentou o maior número de iniciativas e projetos, que aprovou o maior número de projetos na minha legislatura (entre 1995 e 1998). Até hoje ainda estão tramitando ou sendo votados projetos de minha autoria. Acho que este esforço todo que eu fiz, no sentido de desempenhar o meu mandato com a mais absoluta correção, de forma alguma se expressou nos veículos de informação. Perante a opinião pública, o meu mandato foi igual ao de todos os demais e, como todos os outros, visto de uma forma negativa.


