É ingenuidade do presidente Lula, ademais uma função que não lhe compete, intervir pessoalmente junto às autoridades chinesas para resolver o impasse da soja contaminada. Não é assim que se negocia com o mercado externo, insensível a apelos individuais, mesmo que partam de um presidente da República, e com a China essa prática é ainda mais inócua porque os chineses são estrategistas e jogam segundo suas conveniências. Uma potência de 1 bilhão e 300 milhões de consumidores que nenhuma nação exportadora cometeria a imprudência de desprezar tem suficiente cacife para impor seu jogo e até suas chantagens. O maior produtor de soja do Brasil, Blairo Maggi, que é também governador de Mato Grosso, disse claramente que se o preço da soja não tivesse caído, os chineses não teriam encontrado nenhum grão contaminado nas partidas de soja brasileira comprada a preço alto. O comércio internacional não faz concessões, mas isso os negociantes brasileiros da esfera governamental e em grande parte da privada também ainda não aprenderam. Se não houver alguma proposta concreta de negociação não haverá nenhum fim de embargo apenas pela interferência do presidente ou dos enviados do Ministério da Agricultura que ora se encontram na China.
É cômodo para os ministros Roberto Rodrigues e Luiz Furlan passarem uma tal incumbência ao presidente da República, porque com isso eles imaginam isentar-se da própria responsabilidade, que é a de fazer a sua parte no controle sanitário da soja exportada e de qualquer outro alimento da pauta de exportação. Se o jogo é duro com os chineses e se eles agem segundo circunstâncias e pela lei da vantagem, o que o presidente Lula tem a fazer é cobrar daqueles ministros que intensifiquem a fiscalização e não permitam o embarque para a China de soja contaminada. Porque, enquanto os chineses contarem com o argumento da contaminação, mais fácil lhes será impor embargos quando for de sua conveniência. Se o ingênuo presidente brasileiro, embora bem intencionado, sensibiliza nações pobres com suas propostas salvacionistas, falta-lhe a maturidade suficiente para negociar com os grandes, e assim parece agirem também os seus ministros.
Se não bastasse a soja, surge agora o embargo russo às carnes bovina, suína e de frango, procedentes do Brasil, porque foi detectado um foco de febre aftosa no Estado do Pará, que nem é exportador de carne. Incrível que pareça, houve confusão de nome com o Paraná, grande produtor e exportador daquelas carnes. A explicação brasileira aos compradores internacionais deveria ter sido providenciada quando o foco surgiu e não posteriormente. Até que tudo se conserte, os prejuízos serão enormes. São as negligências oriundas da falta de prática, da ingenuidade e também da irresponsabilidade, encontradas na equipe que compõe o Governo Lula, por enquanto ainda preocupada com disputas de poder no estreito limite do círculo governamental. É oportuno perguntar se Lula também irá ligar ao presidente Vladimir Putin e explicar-lhe que Pará não é Paraná.

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