Maria Lucia Victor Barbosa
Filas imensas aguardam todos os dias diante das bilheterias dos cinemas para assistir a ‘‘Matrix’’, filme que está exercendo um imenso fascínio, especialmente sobre os jovens. Quando termina a sessão, a grande massa que lotou cada recinto sai silenciosamente, como que absorta em pensamentos, divagações, indagações: será aquilo realmente possível? Poderemos um dia ser dominados e escravizados pela inteligência artificial que criamos através do computador, e que poderá nos superar? Será que já estamos, sem o saber, vivendo na realidade virtual?
Algumas pessoas reagem comentando: ‘‘É um filme muito violento.’ Outras criticam: ‘‘Quem fez aquilo devia estar drogado.’ E ainda há quem exclame, simplesmente: ‘‘Que porcaria!’ Mas, pergunto eu: será que estas opiniões traduzem a total incompreensão, a mais pétrea ignorância diante do que se acabou de assistir, ou será que estes raivosos e pouco numerosos críticos se externam de forma exasperada apenas para exorcizar o temor e a inquietude que se enroscaram em sua mente, que tomaram conta do seu cérebro com uma sensação incômoda?
O fato é que ninguém sai indiferente de ‘‘Matrix’’. Muitos chegam a rever o filme na tentativa de compreender melhor suas mensagens. E se é difícil captar a totalidade da simbologia e dos conteúdos da obra, o certo é que no fundo cada espectador acaba de algum modo se identificando com o personagem principal, Neo, que percebia difusamente que havia alguma coisa de errado com sua realidade. Atormentado, ele procura ansiosamente algo que não sabe o que é. Medo, solidão, confusão, fuga, ansiedade, busca contínua do desconhecido, fazem dele o humano por excelência. E nas suas imperfeições está sua grandeza. Ele é mais que a máquina perfeita contra a qual irá lutar. Ele é um homem.
Aí está a grande sedução de ‘‘Matrix’’: num dos possíveis níveis de interpretação, Neo é cada ser humano, com suas angústias, temores, perplexidades. Ao mesmo tempo, é o que redime, que salva, mas não de forma exterior. Fundido a todos, Neo é o herói que cada um busca dentro de si mesmo. Todos nós temos algo dele. Aquele redentor é a essência da humanidade. Por isso, o filme pega, agarra, introduz-se no íntimo de cada indivíduo da platéia e o subjuga durante um bom tempo através de tensos questionamentos.
Naturalmente, o filme se presta a várias outras interpretações. Pode-se encontrar nele, por exemplo, elementos místicos. Neste sentido, Neo é o ungido, o iluminado, o messias que veio salvar a humanidade. Para isso ele é iniciado, sofre terríveis suplícios, e através de sua iniciação renasce para a verdadeira vida. Ele tem seguidores, aqueles poucos que como essênios modernos têm consciência de sua missão e o preparam para ela.
Ainda no aspecto místico, recorde-se certas crenças do induísmo, segundo as quais, maia é o poder de Brahman de dar aparência às coisas. Quando os homens impõem visões erradas às aparências, o mundo se torna ilusório e cheio de armadilhas. Logo, o mal básico no induísmo é a avidya ou ignorância. Ora, em ‘‘Matrix’’, a vida ilusória é temática fundamental.
Interessante é que a sensação de ilusão através dos programas de ‘‘Matrix’’ se transforma no grande elemento de terror. Afinal, quando não distinguimos o verdadeiro do falso, perdemo-nos em labirintos mentais, e dificilmente conseguimos suportar tal dúvida sem enlouquecer. Isto quase acontece com Neo, quando ele fez a escolha para conhecer a verdade. De qualquer forma, até neste gesto ele foi essencialmente humano, sinalizando que sempre podemos escolher, exercitando nosso relativo livre-arbítrio para nos salvar ou nos danar, para buscar o bem ou praticar o mal, para nos elevarmos em conhecimentos superiores ou para nos abismarmos na profunda ignorância das superficialidades.
‘‘Matrix’’ pode ainda gerar análises comparativas com as sociedades desse final de século. Nelas, o avanço tecnológico é notável, e coisas que antes só povoavam os livros de ficção, vão-se tornando realidade. O homem avança nos conhecimentos da genética e tem a sensação, por sinal falsa, de dominar os mistérios da criação. Artefatos espaciais perscrutam o cosmos e tentam averiguar misteriosas esferas, sendo que se poderá, quem sabe, muito em breve, descobrir que não estamos sós. O computador se instala definitivamente e promove a grande revolução tectrônica que transforma modos de trabalhar, de pensar, de agir, enquanto cada vez mais o modus vivendi da realidade virtual se impõe.
Entretanto, paradoxalmente, a exuberante sociedade que avança aceleradamente para o futuro, em meio a seus notáveis progressos materiais, encontra-se soterrada na superficialidade cultural, na banalidade dos pseudovalores, na massificação sufocante que iguala tediosamente costumes, comportamentos e atitudes. Contribuíram para isto, justamente, os grandes avanços tecnológicos, que possibilitaram o surgimento da sociedade de consumo, ou mesmo os incríveis meios de transporte e comunicação de que dispomos atualmente. Neste sentido, seria como se as criaturas dominassem o criador.
Em tal ambiente, às vezes não se sabe o que é verdadeiro ou falso. Seria aquela guerra que se vê na televisão, mais um videogame? E o personagem da novela, é de verdade? Simultaneamente à virtualização vertiginosa, a padronização de um mundo cada vez mais semelhante em termos de consumo anula o indivíduo para torná-lo apenas um elemento da massa. Tudo isto produz em alguns uma vaga insatisfação, uma sensação estranha de impotência a partir da qual às vezes pode-se indagar: onde está minha capacidade de escolha? Estarei escravizado a alguma coisa que não consigo compreender? Por que anseio por algo difuso, que preencha meu espírito e meu intelecto?
Quem sabe o personagem Neo, do filme ‘‘Matrix’’, pode nos ajudar achar as pistas para as respostas. Não, é claro, através da ficção, mas da luta eterna que cada um de nós trava em busca da verdade.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
E-mail: [email protected]

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