Mato Grosso do Sul ou Mato Grosso, onde estamos? - Noslin de Paula Almeida
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 04 de maio de 1999
Noslin de Paula Almeida 
O questionamento com relação a Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, com certeza, é feito diariamente por várias pessoas que cruzam a divisa e entram em nosso Estado, e é claro que ao esclarecer esta dúvida, qualquer cidadão sul-mato-grossense responderá de forma indignada: Mato Grosso do Sul.
É lamentável que ao completarmos 20 anos de divisão política, ainda deparamos com pessoas incapazes de fazer esta elementar diferenciação. O que aconteceu nestes 20 anos que os próprios brasileiros não foram capazes de absorver tais diferenças e nos localizar? Alguns com pouco mais de preconceito podem dizer que isto é pura ignorância e que devemos corrigir sempre os mal-informados, mas o que dizer de pessoas cultas e influentes que esquecem, como ministros, políticos, palestrantes e muitas personalidades importantes que aqui chegam e ficam, repetidamente, dizendo Mato Grosso?
E o que falar dos meios de comunicação que insistem na confusão dos nomes? É certo que o nome trocado é sempre o nosso, ou já se viu alguém dizer que Cuiabá fica no Mato Grosso do Sul? Até quando vamos viver tentando corrigir o que não tem conserto? Até que ponto vale a pena irmos contra a tendência natural do menor esforço?
Recentemente, algumas personalidades que são contra a mudança, sugeriram que se faça mais divulgação em torno de Mato Grosso do Sul para fortalecer e lembrar do nosso nome. Talvez isso seja mais caro e inútil do que a troca do nome. O processo divisionista no Mato Grosso surgiu no século passado, e segundo pesquisas, desde aquela época já se encontravam citações do nome Mato Grosso do Sul. Nada mais justo e óbvio que as pessoas envolvidas em todo este processo histórico do Estado tenham uma posição contrária e que deve ser respeitada.
O momento atual sugere uma discussão pragmática e objetiva quanto aos interesses econômicos de nosso Estado, que busca uma independência, e também pelo atual processo de globalização que estamos vivendo neste final de século.
Podemos gastar fortunas divulgando o nome do Mato Grosso do Sul, mas por questões práticas e por descuido continuarão sempre omitindo o adjunto do nome do Estado. Isto pode ser melhor explicado através de uma experiência simples que a maioria de nós já presenciou. Quando viajamos para fora do Estado sempre somos questionados: Como vai o Mato Grosso? Automaticamente corrigimos: É Mato Grosso do Sul. E ouvirmos como resposta um eloquente sim, é claro, mas se a conversa continuar por mais alguns minutos, certamente não demorará muito para ouvirmos novamente um sonoro Mato Grosso.
No caso dos Estados de Goiás e Tocantins, que foram recentemente divididos, não existe esta confusão de nomes. Todo mundo sabe que Palmas é a capital do Tocantins, mas isto não aconteceria se tivessem sido divididos em Goiás e Goiás do Norte.
Outro ponto relevante é quanto ao futuro nome do Mato Grosso do Sul. Já ouvimos muitas pessoas se posicionarem contra o nome Pantanal - defendido pelo atual governador Zeca do PT - alegando que Mato Grosso do Sul não é só Pantanal, Campo Grande (a capital) não tem Pantanal. E este tipo de questionamento não é relevante, pois quem pensa assim deve considerar que Mato Grosso do Sul é formado por 2/3 de planalto (Cerrado) e 1/3 de planície (Pantanal). Onde está o mato grosso?
Outros poderão achar que não se sentirão bem com o nome de Pantanal, por não se considerarem pantaneiros ou então pelo fato de que sua região não está localizada no Pantanal. Isto é uma questão de tempo para nos acostumarmos e aceitarmos este belíssimo nome.
Devemos levar em consideração também que a mudança do nome poderá não ser bem aceita culturalmente, mas em compensação ele será facilmente esquecido após a mudança, e neste caso cito novamente o Estado do Tocantins - ou alguém ainda se lembra que este Estado um dia pertenceu a Goiás?
O nome Pantanal deve ser aproveitado pela força de marketing que possui. Sob a ótica do turismo, podemos ver que Mato Grosso e Mato Grosso do Sul competem entre si em um mesmo produto oferecido e reconhecido mundialmente, ou seja, o Pantanal.
Portanto, esta escolha poderá nos diferenciar definitivamente do Mato Grosso e ainda ganharemos uma vantagem competitiva em relação ao Estado vizinho na divulgação de nosso principal produto turístico. Atualmente, todo e qualquer investimento na divulgação do turismo no Pantanal Sul-Mato-Grossense acaba sempre beneficiando o Estado do Norte, já que na hora do agente de viagem comercializar um pacote ou de algum turista indicar o Pantanal para um amigo ou conhecido, certamente dirão que o Pantanal fica no Mato Grosso. E se por acaso ele conheceu o Pantanal através de Corumbá, terá grande probabilidade de dizer que o Pantanal fica no Mato Grosso.
Comparativamente, a mudança de nome de um Estado não deve ser mais onerosa do que muitos processos de mudanças pelos quais passamos no País, como por exemplo mudanças de moeda e documentos em geral. E sem querer radicalizar, lembro que se formos pensar nos gastos desta mudança, não deveríamos nem ao menos ter pensado em dividir o então Estado do Mato Grosso; ou ainda, se os políticos preferirem, lembro que o custo de cada urna eletrônica é de US$ 800,00. Não seria melhor acabar e exigência de voto obrigatório e continuarmos com a tradicional cédula eleitoral para contermos os gastos?
A discussão do custo financeiro deste processo não deve ser vista nesta ótica, já que as consequências negativas que somamos em 20 anos de história não temos como calcular. Portanto, seria de bom senso não adiarmos mais esta discussão, a fim de que um gasto para mudança de nome no momento atual não se converta em mais prejuízos futuros, já que será lamentável termos que voltar a esse assunto daqui a vinte ou trinta anos, quando seremos questionados por nossos filhos e netos sobre o motivo pelo qual não escolhemos um nome que realmente nos diferenciasse.
- NOSLIN DE PAULA ALMEIDA é bacharel em Turismo e professor universitário em Campo Grande


