MATEMÁTICA SENTIMENTAL - Simetria pode definir sucesso no amor
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 11 de junho de 2008
Érika Gonçalves<br>Reportagem local 
Entre tantos homens e mulheres, como escolher o par que lhe agrada? Por que um homem parece atraente para uma mulher e não exerce nenhuma influência sobre outra? A mulher bonita para um pode não significar nada para outro. Homens e mulheres se relacionam em busca do quê? E por que não conseguimos manter mais um casamento como nossos avós?
O professor Diogo Antonio Bloes Chagas, da PUC de Poços de Caldas (MG), doutor em Psicobiologia, estuda o comportamento dos parceiros sexuais em várias espécies e nos mostra que em muitos pontos ainda somos governados por nossos genes, que têm a memória dos nossos ancestrais da pré-história.
Como se escolhe os cônjuges e os parceiros sexuais?
Apesar de haver algumas diferenças entre culturas, existe um padrão de beleza que é universal. Pessoas mais simétricas, em relação a estruturas do corpo, são consideradas mais belas. E esse padrão de beleza ultrapassa os limites culturais. Em função disso começamos a pensar como a nossa espécie se estrutura em relação à escolha de parceiros. Uma primeira coisa que as pesquisas mostram é que escolhemos pessoas parecidas conosco. O jargão que os opostos se atraem não é verdade.
Parecidas física ou psicologicamente?
Dos dois jeitos. Algumas pesquisas mostram que as pessoas são bastante parecidas em características físicas. Os cônjuges são ligeiramente parecidos no conjunto das características. Também interferem muito características comportamentais, como fatores relacionados à religião, visões políticas, status social, renda.
Depois que se escolhe, a convivência determinará se vão permanecer juntos ou não?
Sim. São inúmeros fatores que determinam isso. Todos relacionados a características comportamentais, mas nesses casos as características físicas também são importantes à primeira vista. A partir do momento em que você começa a interagir com a pessoa, as características comportamentais começam a fazer efeito sobre se você vai decidir ficar ou não com essa pessoa.
Homens e mulheres são iguais nesse ponto?
Homens e mulheres atuam como se fossem duas espécies diferentes, competindo. O objetivo evolutivamente é o mesmo: deixar o maior número de descendentes por um custo menor. Mas eles têm estratégias muito diferentes para isso. Para começar, os homens saem com um investimento muito baixo nessa interação com a fêmea. Se você comparar o tamanho do óvulo com o do espermatozóide, o óvulo tem um custo enorme para ser produzido, além de ser em número limitado. Uma mulher fica praticamente impossibilitada de gerar um filho se ela já está grávida. Um homem pode ter dez, cem ao mesmo tempo.
O que as mulheres buscam nos homens e vice-versa?
Um fator bastante relevante para os homens é a atratividade física nas mulheres. A atratividade física da fêmea está relacionada a boa capacidade reprodutiva. As fêmeas de muitas espécies estarão atentas para quanto os machos conseguirão recursos, basicamente: território, proteção e comida. E não só isso, o quanto eles estão dispostos a disponibilizar esses recursos. Essa característica do macho vai chamar bastante a atenção das fêmeas. Não estou descartando os comportamentos do macho que também entrarão no processo de decisão da fêmea.
Isso é instintivo na espécie humana?
Na verdade nós não aprendemos a prestar atenção nessas características. Se eu perguntar para você quem é o seu parceiro perfeito, é muito mais fácil você descrever algumas características bastante objetivas e óbvias, como altura, cor do cabelo, peso, cor da pele, tamanho dos olhos. Mas o fato é que você não se resume a isso. Por exemplo, a distância entre os centros da pupila, a largura da testa, tamanho do nariz, circunferência do pulso... Elas nos afetam e muito, mas nós não prestamos atenção nessas características, quando nós avaliamos uma pessoa como mais atraente ou menos atraente.
E por que as pessoas se divorciam mais hoje?
Não há uma definição clara sobre qual é o nosso sistema de investimento: monogamia, poligamia, promiscuidade. Muitos autores defendem que a monogamia é forçada socialmente. Por que é difícil se estabelecer uma união estável, um casamento? Nossos ancestrais não viviam mais que 23, 24 anos, e não existiam também bandos grandes. Em função disso, a disponibilidade de encontrar parceiros era menor. Quando se fala em casamento hoje, o que se pensa a respeito é que a pessoa casa com 25 anos e, com a expectativa de vida em média de 70 anos, ficará casada por 45 anos. Nossas avós suportavam as traições dos maridos não porque eram mais tolerantes, mas porque para uma mulher ser divorciada naquela época era muito complicado. Hoje não é mais assim. O próprio fato de instituições como religião e o Estado estipularem normas já é um atestado da dificuldade de mantermos uma união estável.


