Nas sociedades totalitárias a crítica é banida como instrumento dos desestabilizadores do poder do Estado. É subversão. Nas sociedades democráticas a crítica é um instrumento fundamental para a consolidação do próprio Estado democrático.
Desenvolver a massa crítica nas sociedades abertas é um dever da cidadania. Não pelo negativismo permanente, nem na negação de tudo. Mas sim pela vigorosa elaboração de um pensamento estruturado e responsável por parte de quem se propõe a corrigir rumos ou mesmo discordar frontalmente da concepção posta em prática pelos detentores do poder do Estado. Ou dos detentores do saber intelectual. A ação da massa crítica numa sociedade amparada na normalidade constitucional é de valor vital para o seu próprio aperfeiçoamento e consolidação da democracia.
Infeliz o povo, desgraçadamente cruel a sociedade que, tendo roupagem democrática, procura banir pela estratégia da intimidação ou pelo uso do poder econômico sufocante toda manifestação crítica dos diferentes atores, integrantes de uma determinada base social ou política. Ou mesmo nos núcleos de pensamento acadêmico, onde a liberdade não pode e nem deve ser tolhida pela ação de nenhum Torquemada. O livre pensar deve ser o fundamento e a essência do próprio viver intelectual. Todo tipo de censura ou de ações inibidoras ao pensamento tem de merecer firme condenação da sociedade.
Pensar certo ou errado é opção. A própria realidade se incumbe de marginalizar ou banir o pensamento ou a crítica sem fundamento lógico. Nunca, jamais a censura é o caminho para anular ou eliminar qualquer ação crítica. Por mais doidivana, sem sentido que possa ter.
Na ação política, nos estágios democráticos consolidados, a estratégia que nos parlamentos ou nos partidos se desenvolve, tem sempre duas mãos: a situação que governa e a oposição que tem por finalidade ser governo pelo voto. Fora dessas opções o que existe é um fosso onde gravita o oportunismo e o fisiologismo da pior qualidade. Não se engana todos, por todo o tempo.
Nas sociedades de estágio democrático rudimentar, a massa crítica política é anulada pela cooptação ou mesmo por vantagens materiais insondáveis. Isso leva a uma situação dramática. O povo se sente órfão pela ação dos seus representantes, oriundos do voto popular. A barganha passa a prevalecer como fato normal e aceito, com raro cinismo, por todos os atores envolvidos. Do executivo ao legislativo.
Ao invés da massa crítica que, no caso de oposição, funciona como ancoramento para o próprio Poder Executivo, na correção de rumos, estratégias ou definições de políticas públicas, o que se procura é unanimidade. O grande ensaísta Nelson Rodrigues já dizia que toda unanimidade é burra. Unanimidade em política é uma derivada do totalitarismo. E isso está em desacordo com o Estado democrático.
No Brasil, a desestruturação de uma ou de várias correntes de pensamento tem sido uma constante na formação nacional. Mas nunca chegou ao nível desolador dos tempos atuais. Aqui, ali, acolá ainda tem presença uma elaboração crítica diferenciada. O que ainda se salva é o núcleo acadêmico. Fora isso, querem impor o pensamento único.
Partidos políticos fantasmagóricos, inexistência de critérios éticos e morais para a escolha de nomes a serem submetidos ao voto popular, ajuda a consolidar o arrivismo, o despreparo e o oportunismo na representação popular.
Certamente o baixo quociente de credibilidade que vem se repetindo nas sequenciais pesquisas feitas sobre a atividade política tem se baseado no próprio exemplo que a sociedade assiste e vê. E isso não é bom para ninguém. Obviamente sem uma reforma política para eliminar essa prática, diante da inexistência da fidelidade partidária, restabelecer o nível de credibilidade dos atores políticos fica muito difícil. Mas nem por isso deve-se abdicar de lutar para conferir à representação popular um nível razoável de confiança. Cabe a sociedade ser exigente no instante de consagrar essa hóstia cívica que é o voto. O voto mercantilizado deixa de ser uma ação política, transforma-se num balcão de negociatas. Sendo uma operação mercantil, representantes e representados sentem-se desobrigados de exigir contrapartidas. Comprou, pagou, mercadoria entregue, cessa o vínculo. No comércio isso é fundamental. Na política, é o caos.

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