‘‘Mas você ainda é comunista?’’
Maria Lucia Victor Barbosa
Observando como anda a campanha eleitoral presidencial, noto que a estratégia mais evidente dos adeptos de Lula se concentra numa ação pseudo-revolucionária, com claros objetivos de desmoralizar o principal oponente, Fernando Henrique Cardoso. Isto é feito através de vários partidos ou entidades que se ufanam de ser de esquerda.
Por estes grupamento, naturalmente se incluem os chamados sem-terra, que agora invadem também prédios públicos, promovem saques e ditam normas ao governo como aconteceu no Paraná esta semana nas invasões de agências do Banestado, inclusive em Londrina. Os chefetes do MST, muito senhores de si, exigiram dinheiro e disseram ser contra a privatização do Banco. Não houve nenhuma explicação consistente do porquê dessa idéia. Eles apenas são contra, e acabou.
Aliás, nestes casos não interessam explicações racionais. O objetivo é manipular o imaginário social através de ideologias, utopias, mitos, símbolos, rituais, afim de atingir as emoções populares. Como disse Mirabeau: ‘‘É necessário apoderar-se da imaginação do povo’’.
No caso de nossas esquerdas, ou de parte delas, começa-se a instilar, por exemplo, a idéia absurda de que o Brasil é a Indonésia, e que Fernando Henrique com sua feição ultrademocrática é um tremendo ditador nos moldes do corrupto Suharto. Ou então, que os sem-terra são idênticos aos índios mexicanos de Chiapas. Ou mesmo, que todos os nordestinos estão morrendo de fome diante de um presidente insensível e autoritário.
Isso me faz recordar José Murilo de Carvalho, em ‘‘A Formação das Almas’’. Este historiador relembra o entusiasmo que tinham pela França os adeptos da proclamação da República, e conta que Silva Jardim pregava abertamente a derrubada do Antigo Regime no Brasil, não se esquecendo de incluir o fuzilamento do marido da princesa Isabel, o conde D‘Eu, francês a quem destinava o papel do infortunado Luís XVI, numa réplica tropical do drama de 1792.
Da França à Indonésia, nossos revolucionários só faltam agora aprender a cantar o hino deste país, como antigamente se cantava a Marselhesa dando vibrantes vivas a França. Além disso, os órfãos do socialismo parecem no momento perseguir um modelo de ‘‘revolução’’ mais latino-americano, tal como o de Chiapas, que geralmente provoca frêmitos de simpatia entres os cultores da social-tropicália. Diante do subcomandante Marcos até Fidel Castro já vai perdendo o charme. Mesmo porque, dias atrás em Genebra, Castro fez uma pergunta no mínimo inusitada ao comunista André Hediger: ‘‘Mas você ainda é comunista?’
Em todo caso, nossos ‘‘revolucionários’’ do PT, PC do B, PDT, PSB, PSTU, etc, que tanto falam na fome do povo, deveriam ler ‘‘O Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano’’. Neste livro, Carlos Alberto Montaner, Alvaro Vargas Llosa e Plinio Apuleyo Mendoza explicam o que aconteceu com as revoluções da América Latina. Vejamos alguns poucos exemplos dos muitos citados no ‘‘Manual’’:
Nicarágua. Os autores perguntam se a fome foi eliminada da Nicarágua durante a ditadura de Daniel Ortega. Ironicamente respondem que, se assim foi, ‘‘os estômagos de dois terços da população constituída de desempregados e subempregados, ao perder os sandinistas as eleições de 1990, rangiam de felicidade’’. Perguntam, ainda, ‘‘o que foi feito dos três bilhões de dólares anuais que recebeu da URSS o soberano regime sandinista’’, ou o ‘‘que aconteceu com o dinheiro que em 1988 Ortega foi pedir à Suécia com a estória de que seu país, tropical e úmido como poucos, vivia um feroz seca’’.
Peru: ‘‘Conseguiu o general Juan Velasco acabar com a pobreza e a fome do Peru? O impulso revolucionário fez o país saltar do oitavo lugar que ocupava na América Latina nos começos dos anos setenta, para o décimo quarto nos anos oitenta’’. Nesta década, os sem-terra peruanos, em nome dos quais o governo revolucionário expropriou terras e aplicou a reforma agrária, se dedicaram a dividir a terra recebida em parcelas privadas. Quanto a Alan Garcia, levou a produção agropecuária, que nos anos sessenta era a segunda do continente, ao mui antiimperialista penúltimo lugar’’.
Cuba. Será que Cuba desterrou a fome? Os autores do ‘‘Manual’’ afirmam que o país do monocultivo importa açúcar, e que sua renda per capita é quatro vezes menor do que a liliputiana Trinidade e Tobago. Esta situação se deve não ao embargo norte-americano, mas ‘‘à combinação entre ineficiência do sistema e o fim do subsídio’’ que a URSS dava a Cuba.
Muitos outros exemplos existem na América Latina que geraram ditaduras e descalabros econômicos, mas de fato nenhum foi rigorosamente revolucionário no sentido de que não alterou o sistema vigente. Mesmo porque, como está no ‘‘Manual’’, a lógica revolucionária dos ‘‘idiotas’’ latino-americanos é a seguinte: ‘‘Para acabar com os ricos há que viver como os ricos; do contrário não se sabe o que se está combatendo’’. Que o digam Fidel Castro, Daniel Ortega, Joaquim Villalobos etc., e, por que não, Lula, Brizola etc.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga.

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