Marxista pode vencer no Uruguai - Raúl Ronzoni e Federico Ferber
Marxista pode vencer no Uruguai
Raúl Ronzoni e Federico Ferber
Pela primeira vez desde o triunfo de Salvador Allende no Chile, em 1970, um candidato da esquerda de raiz marxista, o uruguaio Tabaré Vázquez, parece estar perto da vitória em eleições presidenciais na América do Sul. A esquerda é favorita nas pesquisas para chegar à vitória no primeiro turno das eleições do próximo dia 31 no Uruguai, e conta com grandes possibilidades de obter o triunfo absoluto no segundo turno, em 28 de novembro. Os analistas acreditam que nenhum aspirante à Presidência conseguirá maioria absoluta no primeiro turno e, assim, os mais votados deverão enfrentar-se no segundo. Mas, o médico oncologista Vázquez, candidato da coalizão Encontro Progressista-Frente Ampla (EP-FA), garante que será eleito no primeiro turno.
Vázquez, ex-chefe de governo municipal de Montevidéu, advertiu antes do início formal da campanha eleitoral que seu governo fará tremer até as raízes das árvores. Porém, a necessidade de conquistar o decisivo voto centrista o levou a mudar seu discurso e, por exemplo, já não questiona o pagamento da dívida externa. Esse é um compromisso assumido e é preciso cumpri-lo, afirmou. Conduzido por Vázquez, o EP-FA parece estar em condições de conseguir o objetivo que persegue desde sua fundação, em 1971, e que a ditadura militar (1973-1985) tentou colocar fora de seu alcance com a mais dura repressão registrada neste século no Uruguai.
Todos os institutos de opinião pública dão ao candidato da esquerda o favoritismo para o primeiro turno, com 36% das intenções de voto, e aumentando. O Partido Socialista, de Vázquez, é a principal força da coalizão, que também inclui comunistas, ex-guerrilheiros tupamaros, independentistas de esquerda, democrata-cristãos e pequenos grupos surgidos de cisões dos partidos tradicionais, o Nacional e o Colorado.
Atrás de Vázquez está o candidato da situação, do Partido Colorado, Jorge Batlle, que já fracassou em quatro tentativas de chegar à Presidência. Batlle tem entre 27% e 28% e permanece nesse patamar desde setembro. Em terceiro lugar aparece o conservador Luis Alberto Lacalle, do co-governante Partido Nacional, que ocupou a Presidência entre 1990 e 1995 e tem entre 20% e 22% da intenção de voto, segundo as pesquisas.
A imagem de Lacalle foi manchada depois de deixar o governo, porque muitos funcionários de sua administração foram processados pela Justiça, acusados de corrupção. Vázquez ultrapassa o liberal Batlle por pequena margem na pesquisa sobre um segundo turno entre ambos. O EP-FA desafia a história. Pela primeira vez, desde 1836, quando foram fundados os partidos Colorado e Nacional, os mais antigos da América Latina, o Uruguai poderá ser governado por um terceiro partido.
Os colorados e os nacionalistas advertiram que as propostas da coalizão conspiram contra a estabilidade monetária e de preços, enquanto Batlle diz que o estilo de vida dos uruguaios estará em jogo nestas eleições, numa alusão às forças radicais que apóiam Vázquez, como os tupamaros. A pregação antimarxista foi uma das armas do atual presidente, Julio María Sanguinetti, que, em 1994, ficou 1% à frente de seu rival nacionalista e a 2% de Vázquez, quando a eleição ainda era disputada em turno único.
Entretanto, o fantasma do socialismo marxista parece ter-se diluído para muitos eleitores diante dos problemas causados pela recessão econômica e o desemprego e por sua frustração com os partidos tradicionais e seus representantes. Além disso, vários analistas advertem que a globalização, os compromissos assumidos pelo Uruguai com Brasil, Argentina e Paraguai dentro do Mercosul e as lições aprendidas em décadas de inflação alta diminuirão a margem de manobra do futuro presidente, mesmo se tratando de Vázquez. O candidato da esquerda pretende amplo consenso político e social para desenvolver uma mudança com igualdade, para o que prometeu voltar-se para os 700 mil uruguaios que, segundo ele, vivem em situação de pobreza.
O governo responde que, segundo a Comissão Econômica da ONU para a América Latina e o Caribe (Cepal), o Uruguai tem grande vantagem em toda a região com relação à distribuição de renda. Para Sanguinetti, o número da pobreza no país é aquele divulgado pela Cepal este ano, que se situou em 6% dos 3,1 milhões de uruguaios. Ou seja, apenas cerca de 180 mil pessoas. Além disso, os dirigentes colorados e nacionalistas afirmam que as promessas de Vázquez não têm base real e que só anunciam um aumento do gasto público que poria em risco a estabilidade e a cotação do peso uruguaio.
O candidato do EP-FA propõe reformular a justiça tributária para que quem tem mais pague mais e quem tem menos pague menos. Também garantiu que reduzirá o desemprego a 8%, a partir dos 11% atuais, e que criará 150 mil postos de trabalho. Lacalle anunciou que votará em Battle na segunda rodada se não conseguir boa votação no primeiro turno, e o candidato colorado prometeu que fará campanha pelo nacionalista se ocorrer o contrário. Os líderes colorados e nacionalistas esperam que os indecisos, cerca de 12%, fiquem do lado de quem enfrentar Vázquez no segundo turno.
Mas o analista político Agustín Canzani acredita que pode acontecer outra coisa. Uma interpretação, mais ou menos aceita, supõe que os indecisos representam uma espécie de voto cativo dos partidos tradicionais. Entretanto, não há evidência empírica dessa opinião, disse Canzani. A informação dos institutos de pesquisa indica que os que deixam para se decidir na última hora formam um grupo razoavelmente heterogêneo que leva a que se espere que entre eles haja comportamentos eleitorais bem diferenciados, acrescentou. De qualquer forma, independente de quem seja o eleito, o certo é que a distribuição de forças no Parlamento, que também será eleito no próximo dia 31, dificultará a tarefa do próximo governo.
O Partido Colorado e o Nacional, aliados no governo de Sanguinetti, conservarão sua maioria na próxima legislatura, se conseguirem estabelecer outro pacto de governo, segundo o analista político Daniel Chasqueti. Embora para isso seja necessário muita disciplina partidária porque, se houver um ou outro dissidente em algum partido, acontecerão dificuldades, advertiu. Outra dúvida, de maior interesse, é se essa maioria estará a serviço de um presidente colorado ou nacionalista ou se enfrentará, como oposição, um governo de esquerda surgido do caminho das mudanças.
- RAÚL RONZONI e FEDERICO FERBER são jornalistas em Montevidéu





