Já não temos entre nós uma das figuras das mais importantes, Mário Lago. Homem culto, politizado e artista. Fará muita falta aos brasileiros que se habituaram aos seus escritos e suas interpretações, sempre carregadas de otimismo, humanismo e, acima de tudo, lucidez.
Não será fácil substituí-lo, pois o seu estilo era de um verdadeiro patriota. Aos 90 anos de idade, continuava brilhante em seus colóquios, um verdadeiro fenômeno cultural único, apesar das frustrações crônicas e das esperanças desencontradas que abalou o seu dia-a-dia.
A música estava no sangue, pois era filho de maestro. Formou-se em direito mas não seguiu carreira, pois não era sua área.
Homem talentoso e de um significado histórico de primeira grandeza para nosso país. A presença de Mário, no processo cultural, sinalizava um divisor de águas separando o presente do passado.
Ele possuía uma força inimaginável, que fazia o entrelaçamento entre as classes burguesas e proletárias, algo que sempre foi difícil para outras cabeças pensantes, mas não para Mário Lago.
Sempre deparou com as resistências e ofensivas tenazes que combatiam suas idéias livres e similares, mas ele era firme e consciente. Enfrentava tais manifestações com suas composições – mais de 200 –, com seus livros e como ator de televisão, teatro e cinema. Foi um verdadeiro baluarte.
Ele era um comunista de carteirinha, juntamente com Jorge Amado e Oscar Niemeyer. Mesmo assim, transpôs barreiras impostas pelos militares. Vários intérpretes da MPB, como Gal Gosta, Paulinho da Viola e Eduardo Dusek, entre outros, regravaram suas canções.
Sua vida cotidiana teve um longo e difícil caminho. A ideologia de um país democrático, para o povo brasileiro, custou-lhe noites de vigília, pois havia muitas perseguições por ele ser comunista.
Sempre lutou em prol dos trabalhadores excluídos e miseráveis de nosso país, o que não vemos nos dias de hoje. Sempre teve vontade coletiva ao longo de sua história.
Sempre condenado ao ostracismo e estigmatizado pela ditadura, conquistou seu espaço, tanto na política como na arte de escrever e representar.
Mário Lago sempre esteve à testa dessa evolução, em todos os instantes, e passou rapidamente de um simples homem a um homem múltiplo de saberes e idéias.
Sempre viveu modestamente. Morreu pobre, quanto a bens materiais, mas rico no saber. É pena que a mídia e o povo brasileiro irá esquecê-lo cedo, pois isso faz parte de nossa cultura.
O Brasil necessita de vários ‘‘Mários Lagos’’, pois sua cultura sempre será uma arma a todos os cidadãos, que é o principal instrumento para aniquilar velhas servidões e expandir os conhecimentos. Mário Lago exprime o passado e o presente, pois sabemos que ele está entre nós.
Obrigado pela lição de vida Mário Lago, pois somos seus admiradores.
GILBERTO JORDÃO é professor universitário em Maringá

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