Maria Lucia Victor Barbosa Comemorações em família Neste ano, o 8 de março, Dia Internacional da Mulher, não foi comemorado com as tradicionais referências às conquistas femininas. Isto aconteceu porque a data foi parar na Quarta-Feira de Cinzas, que hoje em dia perdeu a característica litúrgica vinculada à penitência para ser continuidade do Carnaval. E assim, seguindo o mandamento do Bloco do Batata, em certos Estados o povo continua cantando pelas ruas ou caminhando atrás dos trios elétricos em férias eternas e numa despreocupação feliz. Em todo caso, não deixa de ser interessante estabelecer um paralelo entre o Carnaval e o Dia da Mulher. De um lado, o que se vê especialmente no Sambódromo é a mulher coisificada em sua nudez. Seguindo o modismo de tiazinhas e feiticeiras, a fêmea vive em função de sua embalagem carnal cultivada em academias e aprimorada com plásticas, lipoaspirações e implantes de silicone. Devidamente reformada, ela se oferece à sociedade de consumo como produto erótico. Não tem limites, nem pudores e desconhece qualquer sentido de moral. Apesar disto, depois pede respeito. As qualidades físicas são também valiosas no mercado de revistas masculinas ou na frequência às praias. Tudo é apresentado como arte ou debitado na conta da alegria carnavalesca e, de forma proposital, confunde-se liberdade com liberalidade. De outro lado, há o tipo de mulher que no dia 8 de março comemora seus avanços nas áreas intelectuais e profissionais. Mas enquanto isso, circunstâncias e fatores vão alterando a estrutura familiar que aos poucos se desagrega. Mesmo porque, anda faltando na família – não de maneira absoluta mas em grande parte – o amor de mãe, o zelo de mãe, a proteção de mãe, pois a mulher emancipada já não dispõe de tempo para seus filhos. Claro que esse tempo não precisa ser integral. Nem poderia ser na medida em que os próprios filhos hoje se envolvem em múltiplas atividades que os empurram para fora de casa. Tampouco se está cogitando aqui de uma impossível volta ao passado, quando uma mulher subjugada ao mundo masculino não tinha vez. Mas o que se quer dizer, é que na atualidade a evidente desintegração familiar tem entre suas causas a falta de qualidade dos relacionamentos entre pais e filhos. A consequência de tudo, que pode ser resumida na palavra desamor, evidencia-se na violência da atual sociedade. Sem bases familiares sólidas, sem valores e tradições o ser humano vive à deriva na moderna cultura da mediocridade. Arrefece o respeito pela vida e os conceitos de dignidade e honra se perdem nos desvãos da banalidade. Ingressa-se na era da máquina, onde computadores e televisões comandam impessoalmente atitudes e comportamentos, e o risco de uma robotização do homem massificado através de consumo e costumes padronizados já desponta de forma preocupante. Ao levar esses fatores em consideração, perguntei-me se deveria continuar a discorrer neste artigo sobre o Dia Internacional da Mulher. Afinal, escrever é enviar mensagens, e minhas amargas constatações não me inspiravam louvores ao meu gênero. Desgostava-me lembrar, inclusive, de Madonas e Xuxas, essas mães artificiais feitas de marketing. Assim, interrompi a redação e me perdi em conjecturas. Para minha sorte, porém, chegou o correio. Entre a correspondência havia um envelope grande, que abri com cuidado. Surgiu, então, uma publicação cujo título era: ‘‘Maria Luíza & Mozart – Bodas de Ouro’’. Abri aquela espécie de revista familiar. Nas duas primeiras páginas havia grande quantidade de fotos que misturavam rostos queridos em idades diversas, sorrisos, expressões de amor e carinho. Na legenda estava escrito: ‘‘Netaiada, amigaiada, gente, gente, gente, gentaiada’’. De chofre as recordações afloraram. Na casa ampla da Rua Bernardo Guimarães, 2.570, Belo Horizonte, um flamboyant gotejava pétalas vermelhas sobre o jardim. Varandas que circundavam os quartos, cheias de periquitos coloridos e ruidosos. A biblioteca do meu tio Cristiano Machado, com aqueles fascinantes livros encadernados em couro. Ternura e a louça de chá de tia Hilda (a quem chamávamos carinhosamente de Dedé). Etelvina cantando na cozinha e fazendo aquelas comidas mineiras de dar água na boca. O sofá de veludo azul. A delicada bailarina de louça no canto da sala de visitas. Virei a página. Avôs, avós, pais do casal. Rostos emoldurados num tempo de saudade e reverência. Em seguida, Maria Luíza menina, moça, decidida, intrépida. Depois, Mozart criança, jovem, olhar tranquilo de perceber o mundo. Casarões antigos. Gratas lembranças. Doces reminiscências. Mais ‘‘gentaiada’’ e então surge a noiva radiante e o noivo compenetrado. É o começo de uma família sólida e amorosa, alicerçada na alegria, plasmada na solidariedade e no altruísmo. Dos pais floresceram sete meninos e uma menina. Lindos, perfeitos, felizes. E agora, cada um deles, assim como seus filhos e esposas, declaram na publicação comemorativa das Bodas de Ouro seu amor e sua gratidão, pois durante meio século Maria Luíza e Mozart têm sido exemplo de vida, amparo e desvelo ininterrupto para sua família que ramificou em 15 netos lindos, perfeitos, felizes. Sendo impossível reproduzir os depoimentos de todos, tomemos apenas um, o da neta mais velha Ciça: ‘‘Foram 50 anos. Uma caminhada longa, uma viagem pela vida... Caminhos que foram percorridos lado a lado, um buscando sempre ajudar o outro. E nesta caminhada tão bela, eles passaram juntos pela estrada da harmonia, seguiram as setas que levavam ao caminho do respeito. Subiram ladeiras de alegria e chegaram em vales de carinho. Escalaram montanhas para ver o mundo melhor, para quem sabe, enxergar o próprio coração’’. Volto de novo ao dia 8 de março e elejo um símbolo desta data: Maria Luíza Machado Gontijo, mãe por excelência, esteio da sociedade, fortaleza que ainda sustém esse mundo desvalido. - MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e escritora em Londrina E-mail [email protected]

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