Maria Lucia Victor Barbosa
Destino manifesto Maria Lucia Victor Barbosa Nos tempos idos de minha meninice, quando vivia entre as montanhas e os padrões rígidos de moralidade de uma Minas Gerais que hoje não há mais, era comum fazer-se retiro espiritual durante os três dias em que as festas carnavalescas dominavam mentes e corações. E eu ia entre contrita e revoltada (bem que desejava sambar) para algum convento afastado, onde o canto gregoriano abafava o batuque externo e elevava a alma a esferas mais altas. Enclausuradas e silenciosas, minhas pequenas colegas de devoção e eu meditávamos e rezávamos pelos impenitentes do Carnaval. Hoje já não faço retiro espiritual. Muito menos frequento os bailes de Momo. Diria mesmo que o Carnaval televisionado me provoca certo fastio. Em todo caso, diante dos descalabros que têm vindo à tona nesse país do dá-se-um-jeito onde tudo acaba em samba, recolho-me para meditar sobre temas mais transcendentais, convidando os leitores para que façam o mesmo. Comecemos, então, com uma pergunta: Existirá destino, no sentido fatalista de que são impregnadas certas religiões? Se existe, não passamos de marionetes à mercê de algum ente superior que põe e dispõe de nossas vidas sem que tenhamos nenhuma possibilidade de mudá-las. Algo como o impressionante filme Matrix, que conta a estória da humanidade sob o controle total de um megacomputador. Todos vivem atados à infernal máquina para supri-la de energia. Mas como as criaturas não poderiam suportar tal situação, Matrix cria a realidade virtual, portanto, um mundo ilusório, onde a vida das pessoas é programada. Apesar disso elas supõem que são livres. A visão fatalista leva à acomodação, pois se tudo está escrito, de nada adianta nenhum esforço e seria inútil a vontade de progredir. Basta deixar que aconteça o que tem que acontecer. Está tudo programado. O fatalismo impregna o inconsciente coletivo e aparece nos ditados populares: Ninguém morre antes da hora. O que é meu às minhas mãos há de vir. O que é do homem, bicho não come. E por aí vai. A visão fatalista de alguns povos, segundo certos analistas, leva ao atraso. Já a concepção do livre arbítrio, através da qual o homem é livre para decidir sobre o seu destino, conduziria ao progresso. Liberto, o ser humano pode lutar pela superação de suas dificuldades e, em suma, pode construir o seu futuro através do esforço pessoal. A concepção do livre arbítrio é bem mais simpática. Ela satisfaz a inesgotável vaidade humana e a sede de domínio que habita desde os mais poderosos até as mais reles criaturas. Estufando o peito um sujeito pode nitrir de maneira triunfante a atrapalhada máxima: Só eu mando em mim. Desconhecendo a complexidade das teias sociais que se formam ao seu redor, esse vaidoso se sente o senhor do universo, que aliás, supõe que existe só para servi-lo. Crer no livre arbítrio é também tirar qualquer responsabilidade de algo mais elevado que atende por qualquer um dos nomes de Deus. Se erramos, a culpa é nossa. E bem-feito se pagarmos de forma cruel por nossos erros, sendo que de nada adiantará apelar para forças do além, pois de lá algo pode nos sussurrar: Quem mandou fazer isso? Agora, aguente. Essa noção judaico-cristã impregna a noção de pecado e de um Deus antropomórfico que pune de forma colérica seus filhos travessos. E se os primeiros humanos provaram do fruto proibido (a interditada árvore do conhecimento), o resto da humanidade teve que amargar a sentença fatal: Comerás o pão com o suor do teu rosto. De lá para cá, adeus paraíso. E não adianta argumentar que foi Ele que nos criou assim fracos, dissolutos, ignorantes. Quem errar, mesmo que seja por inexperiência ou ingenuidade, paga por seus atos. Naturalmente em termos de realidade as coisas nem sempre funcionam desse modo, o que leva de novo a indagar: existirá destino? Isso porque, pelo menos aparentemente são os piores que se dão melhor nesse desvalido planeta. Basta olhar ao redor para perceber sem muito esforço que os honestos, os gentis, os humildes, os virtuosos não conseguem grandes progressos, pelo menos em termos materiais. Geralmente estes são pobres, desgraçados e sofredores. Ao contrário, qualquer salafrário razoavelmente esperto galga sem maiores esforços os píncaros da glória. Alguns destes são dotados de tal sorte, que por mais que roubem, tripudiem, lesem seus semelhantes sempre conseguem se safar, sendo até prestigiados ou mesmo idolatrados. Nestes casos prevalece o rouba mas faz da escola adhemariana. Parece coisa do destino. Existe contudo outra ótica que contempla o livre arbítrio de forma mais razoável. O milenar induísmo, por exemplo, ensina que existe uma lei de causa e efeito que é chamada de carma. Isso quer dizer que qualquer ação produz uma reação, que conduz a um resultado. Não há pecado propriamente dito nem um deus em forma de pai rigoroso. A libertação do nascimento ou moksha, é obtida por esforço pessoal através de várias encarnações. Vai-se e volta-se até evoluir o suficiente para não precisar retornar, ou seja, realiza-se inexoravelmente a longa e torturante travessia sempre recomeçada, a samsara. Essas idéias são mais lógicas e bastante confortadoras, mas não eliminam a sensação de desamparo diante das divindades que continuam um tanto cruéis. Distantes e ocultas, elas parecem se divertir com o jogo do bem e do mal no qual o homem se debate em busca do nirvana. Se há destino ou livre arbítrio, só cada um pode responder. Mas observando o que ocorre no mundo e no Brasil nesse tumultuado ano 2000, lembremos da expressão destino manifesto. Em circulação no século passado, significou nos Estados Unidos que o país teria nascido para ser grande, próspero, vitorioso e irradiar seu poder pelo mundo. No Brasil, destino manifesto queria dizer no mesmo século que estávamos fadados a marchar para trás e a definhar. E hoje, o que se pode afirmar diante dos fatos e acontecimentos? Meditemos sobre o tema durante o Carnaval. - MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina E-mail [email protected]





