Maria Lucia Victor Barbosa
Falta de caráter
No último número da revista Exame, meu caríssimo amigo e ex-colega de Universidade Federal de Minas Gerais, Bolívar Lamounier, escreveu de forma como sempre brilhante um artigo que me deu o que pensar. No texto, cujo título é falta de caráter?, Bolívar faz uma comparação entre o Brasil e a África do Sul, dizendo que as diferenças entre os dois países podem ser tão instrutivas ou até mais instrutivas que as semelhanças por ele referidas.
Uma dessas diferenças, segundo o cientista político, refere-se ao tom das discussões dos intelectuais e políticos sul-africanos, em contraste com o dos intelectuais e políticos brasileiros. Os primeiros são plenamente conscientes da extrema violência que sempre acompanhou a história do seu país e recentemente optaram pela transigência e pela democracia. Nesse sentido, como analisou Bolívar, para bem fulanizar essa convergência, foram buscar Mandela: um líder da resistência ao apartheid, que passou 27 anos preso numa ilha e de lá saiu para promover a reconciliação do país.
Já o nosso caso, afirma meu ex-colega, é justamente o oposto. E acrescenta: O fato de não termos tido uma história política especialmente violenta parece toldar a nossa compreensão de paz. Tome-se como exemplo o tema da conciliação em nossa história política. Devo ter lido uma centena de trabalhos acadêmicos nos quais o recurso à negociação e a capacidade de transigir são invariavelmente apresentados como uma deficiência histórica, senão como sinal de uma irremediável falta de caráter.
Bolívar nada disse sobre um aspecto que eu gostaria de comentar. É que os incontáveis historiadores e cientistas sociais que sempre amaldiçoaram o caráter incruento de nossas revoluções são quase que invariavelmente de esquerda. Esquerda na qual acreditei, sobretudo nos meus tempos idos de juventude estudantil. Naquela época dourada, Marx era o profeta que nos ditava dogmas, e o modelo podia variar entre o soviético e o chinês, sendo que Fidel Castro era o ídolo capaz de adaptar aos trópicos sul-americanos o mais caliente dos marxismos-leninismos.
A grande maioria de nós, bem-nascidos burgueses de classe média, sonhava com a revolução. Haveríamos de conduzir heroicamente o proletariado, que não estava nem aí para nós, à luta que culminaria com a tomada do poder. Juntos, estudantes, camponeses e operários, instalaríamos finalmente no Brasil o sistema comunista e acabaríamos com a luta de classes, pois sem o Estado, instrumento de opressão de uma classe pela outra, vigoraria para sempre a igualdade. Portanto, uma sociedade fraterna e solidária emergiria do sistema capitalista desalmado e cruel.
Éramos sinceros e seguíamos a tradição da esquerda que veio ao mundo com o objetivo de mudar - e a esquerda de Marx e Engels queria mudar pela força -, de se opor, de transformar um sistema considerado perverso e injusto. Por isso, ficava chato não ser da esquerda. Era sinal de mau caráter. Como era sinal de caráter frouxo nossa sociedade não fazer revoluções violentas para promover mudanças radicais.
De nossa geração rebelde-esquerdista dos anos 60, saíram muitos historiadores e cientistas sociais. Claro que antes de nós haviam grandes figuras de intelectuais brasileiros, que através de suas obras ou de suas aulas nos instruíram ou doutrinaram nos conhecimentos de Marx, Lênin e Stalin. E hoje, quando após a derrocada do Império Soviético e da queda do Muro de Berlim as realidades mundiais tomaram um rumo que jamais poderíamos esperar - muito menos Karl Marx - outros historiadores e cientistas sociais, assim como professores, bacharéis, profissionais liberais e alguns religiosos, continuam a se dizer de esquerda e a pregar a revolução, caso contrário se sentiriam indivíduos sem o menor caráter. Ser de esquerda para eles é sinônimo de pureza e honestidade e nunca se importaram em saber o que Lênin, Stalin, Fidel Castro etc. aprontaram, não só em termos dos direitos humanos - que os eminentes esquerdistas defendem tanto - mas também no sentido do descalabro social e econômico que legaram às sociedades sobre seu comando.
Alguns desses revolucionários, que como disse Roberto Campos são comunistas como pessoa física e capitalistas como pessoa jurídica, escrevem obras que pregam a revolução ou organizam movimentos revolucionários. Parece que há uma obsessão das esquerdas brasileiras, baseada na falta de heróis e na inexistência de movimentos incruentos. Eles sonham com um Sendero Luminoso nacional ou com sem-terras que agissem como se estivessem em Chiapas. Entretanto, como escreveu Bolívar em seu artigo, referindo-se aos nossos intelectuais: Por mais que nos esforcemos, às vezes temos a sensação de sermos diletantes, de estamos elaborando idéias sem conexão com a vida real, ou com idéias que só terão consequências práticas a médio prazo e de maneira indireta.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga.





