Passaporte para o desconhecido
Maria Lucia Victor Barbosa
A pobreza sempre seduziu políticos e intelectuais como tema de discussão, mas poucos se inclinaram a apresentar solução para o problema. Eu mesma tratei do assunto no meu livro ‘‘O Voto da Pobreza e a Pobreza do Voto – a ética da malandragem’’, publicado por Jorge Zahar e lançado em novembro de 1988. De lá para cá, pergunto-me se alguma coisa mudou no Brasil e no mundo, quando leio nos jornais sobre o tenebroso 22º Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial (World Development Report-WDR) do Banco Mundial (Bird), verdadeiro passaporte para o desconhecido num planeta mais pobre e sombrio.
Questão muito antiga, a pobreza que, como categoria social, costuma ser medida estatisticamente, sobretudo através de critérios baseados em níveis de renda, é visível a olho nu, incomoda a todos em geral e é a maior desgraça que pode haver sobre a face da terra, especialmente para os que são pobres.
Na Antiguidade, Aristóteles considerava a escravidão como uma regra da natureza, e os escravos pareciam concordar com ele. É mais provável que o declínio da escravidão tenha tido como causa a própria ineficiência do trabalho escravo, assim como as limitações que foram surgindo ao poder do senhor. Entretanto, a servidão é a forma mais extrema de desigualdade e de pobreza. Senhor e escravo revelam a relação de domínio em que o segundo aparece como possessão ou propriedade do primeiro, sem direitos políticos e socialmente desprezado.
Na Europa medieval, quando no século XII a servidão crescia, teorias legais justificavam os Estados ou estamentos feudais. Sem direito à justiça, aos instrumentos e coisas que utilizavam, sujeitos a multas, sofrendo penalidades diferentes impostas a crimes semelhantes, os miseráveis servos, assim como os componentes da nobreza e do clero, deviam considerar tudo muito natural. E pobres e ricos daquela época e daqueles lugares hoje prósperos, viviam em média 30 anos, morrendo de peste, de sujeira e de ignorância.
Da Revolução Industrial em diante, ‘‘classe pobre’’, ‘‘classe trabalhadora’’, ‘‘proletariado’’, eram termos que designavam o assalariado. As péssimas condições de vida, a ausência de direitos, as jornadas absurdas de trabalho, compunham o conhecido quadro do início da Revolução Industrial. É nessa conjuntura histórica que a pobreza começa a deixar de ser vista como problema natural e passa a integrar os estudos e análises da nova ciência surgida no século passado, a sociologia.
Em ‘‘Principles of Economics, publicado em 1890, o economista Alfed Marshall expressara com extraordinária lucidez as condições reinantes em sua época: ‘‘... há grandes contingentes da população, tanto na cidade como no campo, que crescem com insuficiência de alimentos, vestuário e de alojamentos, com educação cedo interrompida a fim de irem ganhar o sustento no trabalho, ocupando-se desde então durante longas horas em esforços exaustivos com corpos mal nutridos, e não tendo assim oportunidade de desenvolver suas mais altas faculdades mentais’’.
A questão da pobreza continua hoje o grande dilema brasileiro, sendo que em decorrência de nossa formação, o desnível entre ricos e pobres sempre foi marcante, além das profundas diferenças regionais que compõe o país do contraste. E, estaremos afundando cada vez mais no abismo que a miséria e o atraso interpuseram entre nós e os países desenvolvidos?
Sim, dirão os economistas do Bird que compuseram o ‘‘relatório’’, imenso documento apocalíptico onde dados agourentos indicam que a pobreza aumentará não só no Brasil como no mundo inteiro, e tanto nos países subdesenvolvidos quanto nos desenvolvidos.
Segundo as profecias catastróficas, até a metade do próximo século, a população mundial passará dos atuais 6 bilhões para 10 bilhões (quando parará de crescer) e estará concentrada nas cidades onde faltarão alimentos, água e serviços básicos como esgoto, transporte etc. O ar estará mais poluído e as doenças aumentarão, além, é claro, das diferenças entre ricos e pobres.
Os economistas do Bird parecem não ter levado em conta os avanços tecnológicos e científicos do mundo atual, apesar de concederem que houve extraordinário crescimento de expectativa de vida nas nações pobres nos últimos cinco anos. Também suas afirmações às vezes são dúbias, como esta: ‘‘A globalização é como uma onda gigante que pode engolir as nações ou levá-las para frente’’. Ou óbvias: ‘‘Bem administrar os fundamentos da economia e manter a estabilidade são certamente objetivos vitais de qualquer política de desenvolvimento merecedora do nome’’. E apesar de afirmarem o papel central dos governos no processo de desenvolvimento, concluem que: ‘‘Não há um conjunto de regras claras que lhes diga o que devem fazer’’.
Enquanto isto, na revista ‘‘Veja’’ do dia 8, Claudio de Moura Castro demonstra que no Brasil, segundo dados de pesquisa, a mortalidade caiu de 162 para 48 por 1.000, entre 1930 e 1990. Entre 1970 e 1996, a expectativa de vida subiu de 51,4 para 67,6. As casas com água encanada passaram de 53% para 83% entre 1980 e 1997; 81% dos domicílios tinham TV, 74% geladeira, 93% eletricidade, em 1995. Se em 1970, 67% das crianças estava na escola, em 1988 havia 96%. A matrícula do ensino médio dobrou nos últimos sete anos.
Claro que a vida continua difícil. E continuará enquanto existir a criatura humana com sua violência, sua ambição, sua inveja, sua vaidade, sua capacidade de destruição, sua ignorância. Mas não se pode dizer que as coisas pioraram mesmo nos lugares mais pobres do Planeta. Além do mais, numa coisa o teimoso bicho-homem é perito: ele sempre soube se reinventar diante das piores crises. E apesar das incertezas, provavelmente moldará de novo seu futuro. Nem que for na Lua.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
E-mail: [email protected]

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