Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 28 de maio de 1999
Maria Lucia Victor Barbosa 
Em que pesem as sórdidas denúncias das oposições com relação ao envolvimento do Planalto em leilão da Telebras, veiculadas por um jornal de São Paulo e ampliadas por toda imprensa sequiosa de escândalos e estardalhaço, os mercados se acalmaram, em que pese as oscilações das bolsas internacionais com consequentes reflexos no Brasil. Enquanto isso, a inflação continua controlada, e a economia estável permite o crescimento econômico do País a níveis até melhores do que os projetados depois do efeito pão de queijo, provocado pelo Mussolini das Alterosas.
Inconformados, os líderes do PT, PDT, PSB e do PC do B na Câmara, protocolaram na quarta-feira passada representação com denúncia de crime de responsabilidade contra o presidente Fernando Henrique. Isso significa que eles nunca se cansam de sonhar com impeachment, que conseguiram no caso do presidente Collor, e que insistem em aplicar a este outro Fernando, o qual tem em comum com o aquele apenas o nome. Se obtivessem seu intento, o caminho do poder estaria livre, e somente isto interessa a Lula, a Brizola, ou a qualquer desses chamados líderes de oposição que se ufanam de pertencer a uma nebulosa esquerda, mas que não apresentaram - nem sequer em suas malogradas campanhas presidenciais - qualquer projeto concreto de governo que servisse aos imensos desafios do País.
Este tipo de gente sempre infernizou os que de fato governaram em benefício da Nação. Eles são os mais lídimos representantes da mentalidade do atraso que campeia entre nós, e que se originou na cultura implantada historicamente. Seu caráter é autoritário. Suas táticas de ascensão ao poder se baseiam no nacionalismo xenófobo, no populismo hipócrita, no estatismo ultrapassado. Com esses truques de ilusionismo, eles se tornam aptos para seduzir os incautos, os ingênuos, os desinformados.
Além do mais, neles o etnocentrismo se exacerba, pois não são capazes de enxergar virtudes a não ser em sim próprios, o que os leva a uma moralidade dupla: são sempre os bons, e os outros, os ruins. Na verdade, simulam possuir pureza imaculada, integridade de caráter, compaixão sem limites para com os humildes. Ademais, sentem-se como salvadores da pátria, heróis ungidos pela massa, condutores do povo. Portanto - imaginam - tudo lhes é permitido, ao contrário dos demais.
Essa maneira de ser os leva a distorcer propositadamente os fatos, a escamotear a verdade através de intrigas e escândalos. Exatamente por isto, seus julgamentos são exclusivamente políticos e não baseados em leis, o que é próprio dos déspotas, dos ditadores, dos autoritários.
Em síntese, eles são os antiestadistas, os cultores do quanto pior melhor, além de demonstrarem uma ignorância crassa da coisa pública e da arte de governar. E agora, retomam seus ataques ao presidente eleito democraticamente por duas vezes para achincalhar sua honra, para desmoralizá-lo publicamente. Assim, dão continuidade aos seus intentos golpistas e adiam mais uma vez a votação das reformas necessárias para a sustentação do Plano Real.
Eles não se importam de oscilar entre o ridículo e o grotesco de suas difamações desde que isto lhes mantenha o sonho de alcançar o cobiçado cargo presidencial, e parecem se lançar com mais sanha justamente sobre os mais competentes, os mais capazes de beneficiar o Brasil. Tais atitudes estão gravadas na história, e o que aconteceu com outro grande estadista brasileiro comprova o que aqui se afirma.
Quando em 31 de janeiro de 1956, Juscelino Kubitschek de Oliveira assumiu a presidência da República, inaugurou-se o período mais democrático e de maior desenvolvimento que o País conhecera. Seu arrojo e determinação lograram obter, entre 1956 e 1961, um crescimento econômico extraordinário, cuja base foi a expansão industrial. Este vertiginoso crescimento industrial não poderia deixar de exigir a entrada de capitais estrangeiros, cujo movimento não obedece a impulsos sentimentais ou filantrópicos, mas a motivações racionais alicerçadas na lei do lucro.
Aos poucos, as promessas de campanha iam-se cumprindo, coisa raríssima na política brasileira. Uma das promessas se tornou a meta-síntese do governo: a nova capital, Brasília, a iniciativa mais criticada. E enquanto o País acelerava a industrialização, e regiões iam sendo integradas por amplo sistema rodoviário, a sociedade também reagia demonstrando extraordinária vitalidade na literatura, na música, nas artes plásticas, no teatro, no cinema. Ao som da bossa nova fluíram aqueles anos dourados.
Mas quando Juscelino Kubitschek recorreu ao FMI, começou seu desgaste. Esse foi o momento ideal para que a esquerda expandisse seus argumentos na defesa de um nacionalismo estridente e sua crítica ao capitalismo como origem de todos os males, especialmente o capitalismo norte-americano.
Em 1960, o problema sucessório começava a prender as atenções. Ao mesmo tempo, a sociedade se tornava mais complexa, e os conflitos, mais diversificados. No campo, as ligas camponesas lideradas por Francisco Julião estavam em plena atividade. Nos setores urbanos, as ansiedades difusas das massas eram em parte capitalizadas por populistas de esquerda, cujo representante mais expressivo era o governador do Rio Grande do Sul, Leonel de Moura Brizola. Brizola se configurava diante das massas como caudilho carismático, acenando com maiores salários e usando a infalível tática nacionalista que investia contra os credores alienígenas para captar a adesão nacional às suas pregações.
Hoje se vive novos tempos, mas certas situações guardam semelhanças. Quanto a Brizola, ele não mudou, exceto que perdeu o carisma. Já não seria então o momento de dizer a este tipo de político, chega, basta, fora? Afinal o crime do presidente Fernando Henrique se resume ao mesmo de Juscelino: ser um democrata e um realizador.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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