O que significa a ‘‘quarta espada do marxismo’’? Muito simples. Esta ‘‘espada’’ é o simbolismo escolhido pelo movimento peruano Sendero Luminoso para caracterizar seu líder Abimael Guzmán, um professor de filosofia que o presidente Alberto Fujimori arremessou para as profundezas de uma prisão, desferindo assim um golpe mortal no grupo maoísta mais sanguinário existente no seu país. Quanto as demais ‘‘espadas’’ cultuadas pelo Sendero, são: Karl Marx, Lenin e Mao Tsé-tung.
Pois bem, agora os ideais da ‘‘quarta espada’’ se aclimataram no Brasil da mesma forma demente, autoritária e ultrapassada. Eles se consubstanciaram numa organização radical de esquerda denominada Liga Operária e Camponesa (LOC), cuja origem remonta ao Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), e depois à sua cisão, o Partido Comunista Revolucionário (PCR). A LOC tem como principal líder Albênzio Dias, o Boné, um ex-metalúrgico que propõe a guerrilha e o terrorismo como meios de derrubar o atual governo e ascender ao poder.
Quem apresenta esta organização ao Brasil é a revista ‘‘Istoɒ’ (edição do último dia 12). E os que expõem os meandros da Liga são seus ex-militantes. Não há, portanto, razão para se duvidar da veracidade da matéria. O monstrengo revolucionário tomou forma e está entre nós. Já temos o Sendero Luminoso à la brasileira.
Segundo a revista, os guerrilheiros da LOC, adoradores da ‘‘Quarta espada’’, ou seja, de Abimael Guzmán, não são pobres coitados. De acordo com sua hierarquia militarizada, ganham de R$ 400,00 a R$ 3 mil. Soldo, portanto, de fazer inveja ao comum dos assalariados, e muito mais aos desempregados que a organização diz defender. As polpudas verbas vêm de sindicatos e órgãos governamentais que sustentam suas ONGs. Uma delas, o Instituto de Educação do Trabalhador (IET), recebeu R$ 9,96 milhões do Fundo do Amparo do Trabalho (FAT) nos últimos três anos, através de desvios de recursos federais via governo de Minas Gerais. O rombo pode ser até maior, considerando-se que lideranças da LOC tinham cargos na Secretaria do Trabalho de Minas Gerais durante o governo de Newton Cardoso (1987-91), atual vice de Itamar Franco.
Conforme um dirigente, em entrevista à revista, os custos de manutenção são elevados, ‘‘mas já existem 62 associações em diversos pontos do Brasil discutindo a luta armada, embora a grande concentração de potenciais guerrilheiros esteja no Norte e no Nordeste’’.
A LOC parece se concentrar também fortemente em Minas Gerais. Foi esta organização que protagonizou recentemente o confronto entre a Polícia Militar e um grupo de sem-teto em Betim, resultando da escaramuça dois mortos que foram levados para a Prefeitura, devidamente depredada pelo bando.
Por estas ironias do destino, o prefeito de Betim, que é o do PT, ou seja, do partido que se converteu numa das maiores lideranças de invasões de sem-terra, parece estar apavorado diante da ação orquestrada pela LOC, que monta guarda na fazenda invadida e bravateia que nem o Exército tira de lá os assentados.
Como fanáticos que pensam ser os únicos detentores da verdade, os senderistas brasileiros não aceitam ninguém fora de suas hostes. Para eles, o presidente Fernando Henrique, Lula, Brizola, Olívio Dutra, Itamar Franco etc. ‘‘são farinha do mesmo saco’’. Sobre Itamar, disse Gerson Lima (ex-presidente da CGT, líder regional da LOC e líder dos sem-teto) referindo-se à última comemoração do Dia de Tiradentes: ‘‘Aquela solenidade de Ouro Preto foi uma baita demagogia.’’
Estes fundamentalistas ideológicos prestam juramento ajoelhados diante de sua bandeira e de seus comandantes, de que serão leais à causa, e que darão a vida por ela se necessário. Como bons guerrilheiros, possuem rígida disciplina. Acordam cedo e treinam com fartos armamentos adquiridos de traficantes do Rio de Janeiro e de Rondônia. À tarde, sempre devidamente encapuzados, recebem aulas de doutrinação marxista, transmitidas muitas vezes em espanhol.
Muitas invasões de terras e assentamentos são liderados pela LOC, e como se lê na ‘‘Istoɒ’, ‘‘... os homens devem sempre segurar foices e enxadas. Nos momentos de conflito, as mulheres e crianças devem ocupar a linha de frente para funcionar como uma espécie de escudo.’’
Interessante que, quando há tempos analisei em artigos o MST, apontei o fato desta organização estar evoluindo na linha do Sendero Luminoso, apesar de não haver atingido todo o grau de ferocidade do movimento em extinção no Peru, o qual, em nome de sua revolução maoísta e do povo, trucidou milhares de camponeses e gente simples. Fui criticada pelos que viam exagero nas minhas considerações. Eu era a única a tocar no assunto e apontar os equívocos de um movimento aparentemente social, mas de cunho guerrilheiro e ideológico.
Agora muita gente tece críticas aos abusos do MST. E uma revista nacional produz interessante matéria sobre um dos comandos do Movimento dos Sem-Terra, que por sinal sempre foi liderado pelo PT, outros partidos e organizações de esquerda, e setores religiosos como os da Igreja Católica. Mas pergunto eu: teriam estas lideranças se deixado seduzir também pela ‘‘Quarta espada’’? Afinal, nas descrições feitas das invasões de sem-terra, o procedimento diante de estranhos é sempre o mesmo: foices e enxadas que aparecem, e armamento dissimulado, enquanto mulheres e crianças formam a linha de frente para proteger a retaguarda. Porém, o mais grave é que o MST não cessa de se expandir e recrudescer em violência, estando portanto na hora, se é que já não passou dela, de o governo controlar de forma mais efetiva os absurdos cometidos nas invasões, e da sociedade despertar para a gravidade da situação. Lembremos das palavras do ‘‘Manual do perfeito idiota latino-americano’’: ‘‘Muitas vezes a violência revolucionária faz história. Mas é a história da crueldade e do fracasso, e não da humanidade e do êxito.’’
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina
E-mail: [email protected]

mockup