São Paulo Na noite de Natal, Maria espera pelas dores do parto. Se o filho nascer, a calçada será o seu presépio, e uma velha mesa de madeira, sua manjedoura. A Maria do Natal paulistano é uma doméstica chamada Cíntia Maria dos Santos, 23, sobrevivendo do incêndio que destruiu 535 barracos e deixou mil pessoas desabrigadas na favela Zaki Narchi, em Santana (zona norte), dois dias antes do Natal. Sobre a barriga de nove meses, ela abraçava sua outra filha, Sandra, 3. A menina vestia roupa nova: saiote branca, camiseta rosa e botinhas. ''É a roupa que comprei para o Natal dela'', explicou Maria. A filha e um RG foram tudo o que a doméstica conseguiu salvar.
Como há 2 mil anos, a Maria da favela Zaki Narchi não conseguiu abrigo para os últimos momentos da sua gravidez. Após o incêndio, ela foi barrada na escola municipal Professor Derville Alegretti, onde parte das famílias desabrigadas foram provisoriamente instaladas pela prefeitura. ''Disseram que os que estavam lá dentro já eram demais''.
Nesta madrugada de 25 de dezembro, Maria não recebeu presentes de pastores ou reis. Tudo o que ganhou foi uma doação da prefeitura cinco peças de roupa, um litro d'água e uma cesta básica, com alimentos que não tem onde cozinhar.
O marido dela não pode ajudá-la. Como convém à data, ele está em Belém na verdade, no Centro de Detenção Provisória, preso há três meses por roubo.
''O Natal é só para os outros'', disse. ''Eu fico vendo o pessoal passar alegre e arrumadinho pela calçada, e eu continuo no meu cantinho...'' Sem ter onde ficar, Maria escolheu proteger-se da chuva sob uma cobertura na entrada da favela, em frente à avenida.
O chapeiro José Adelson Estevão de Jesus, 27, precisou dividir um quarto emprestado, de aproximadamente quatro por três metros, com a esposa, a cunhada e vários filhos e sobrinhos ao todo, 14 pessoas. Como era impossível acomodar todos de uma vez, o Jesus da favela Zaki adotou um revezamento. ''Enquanto uma parte dorme, os outros esperam a vez do lado de fora do barraco'', explicou. Levando a família para pedir comida nos semáforos, Jesus não conseguiu incenso e mirra nesta noite, mas, em compensação, ganhou um marmitex da prefeitura. Apesar da fome, não teve coragem de tocar no arroz com mortadela e polenta. ''Não dá para engolir'', disse.
Como muitos moradores, Jesus conta o tempo na favela pelos incêndios. ''Estou aqui desde o primeiro fogo, em 1986'', comentou. O incêndio do dia 23 foi o seu ''quarto fogo'', do qual Jesus conseguiu salvar apenas um aparelho de som e uma televisão, mas apenas por pouco tempo. Em meio à confusão do incêndio, os aparelhos foram roubados. ''Nessa hora, tem muita gente que só quer se aproveitar da desgraça''. Jesus perdeu a fé nos homens.

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