O caso que mais marcou a coordenadora dos grupos de Terapia Comunitária em Londrina, Maria da Graça Martini, não teve somente uma razão de ser. Além de ter sido sua primeira atendida, Maria Aparecida Schiavon da Silva, de 51 anos, conseguiu sair de uma situação que pouca gente imaginaria que ela fosse capaz de superar.
''Tenho obesidade mórbida e tudo que acontecia de ruim, me refugiava em casa. Passei a ter vergonha de me olhar, pois enxergava um monstro, enorme. Mas hoje, depois de tudo que discutimos nas terapias com a comunidade, aprendi a me amar como sou'', conta.
Dona Cida como é conhecida no Distrito de Irerê (Zona Sul), onde mora se lembra como cenas de um passado já bem distante das inúmeras vezes em que era flagrada pelo marido, de madrugada, olhando para a rua à espera do filho, um jovem de 21 anos. ''Vivia em pânico, pois pensava que iriam matá-lo fora de casa. Chorava e rezava o tempo todo e ainda achava que só eu tinha problema. Nas reuniões, comecei a perceber que mais gente sofria como eu e notei que o jeito era encontrar soluções e enfrentar tudo de frente.''
Determinada a mudar, ela criou uma organização não-governamental (ong) para a reciclagem de lixo, no quintal de sua casa, junto com outras amigas da terapia. Agora ela passa o dia todo com atividades, ''sem tempo para pensar em besteira'', e ainda garante uma ajuda média de R$ 100 no orçamento da família.
No lugar da dona Cida que chorava e sofria cada vez que morria alguém no distrito, ''mesmo que não fizesse parte da família'', surgiu uma outra, mais consciente de si e dos planos que, espera, tornarão melhor seu futuro. ''Estou na fila para a cirurgia de redução do estômago há anos; acho que em 2004 vai dar certo. Além disso, vou entrar em um curso de culinária.''
Mas se os planos tomaram o lugar do isolamento e da falta de perspectivas, a consequência mais valiosa dos meses de Terapia Comunitária, ela comenta, foi a mudança na forma de se relacionar dentro e fora de casa. ''Antes, gritava por qualquer coisa, não sabia conversar e muito menos aguentava desaforo calada. Hoje levo tudo na esportiva, quando brincam comigo. Aprendi a dialogar, aprendi a resolver problemas, ao invés de encontrá-los mais e mais.'' (J.G.)

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