Marcos Elias Traad da Silva

Quem deve comemorar a safra?
As notícias obtidas sobre os recordes obtidos na agricultura, tanto em termos de crescimento econômico, quanto em relação à produtividade de algumas culturas, sempre provocam euforia nos meios políticos, principalmente quando a questão é contabilizar como o governo atuou para a obtenção de tais resultados.
Nesse sentido, se tivéssemos que fazer uma análise crítica sobre a forma como o governo, principalmente o federal, vem tratando o setor agropecuário, haveríamos de concluir que: ‘‘em nada as instituições públicas devem comemorar os bons resultados advindos do setor agropecuário, exceto pela possibilidade de aumento de arrecadação de impostos (diretos e indiretos), que continuarão, sem dúvida, sendo utilizados em grande parte para a manutenção de despesas infindáveis, nestas mesmas instituições’’.
Isso é verdadeiro, na medida em que, ano após ano, os benefícios e o apoio governamental para o desenvolvimento da agropecuária, notadamente nos países em desenvolvimento, são cada vez mais escassos e principalmente voltados ao custeio, o que tem levado à crescente descapitalização do nosso dedicado e patriótico produtor rural. Tal comportamento do governo baseia-se na evasiva falta de recursos, combinada com a desculpa da necessidade de cumprimento da famigerada ‘‘Nova Ordem Econômica Mundial’’, que na realidade expressa a imposição dos países do ‘‘bloco desenvolvido’’, com interesses direcionados em alguns segmentos específicos. Entretanto, os ‘‘países ricos’’ continuam promovendo os grandes absurdos na economia mundial, sempre no sentido da espoliação dos menos competitivos, mas com fortes incentivos e barreiras protecionistas aos seus produtores - ‘‘faça o que eu digo, mas não o que eu faço’’.
Quando constatamos que, mesmo com todos os problemas da falta de compromissos dos governos para com o desenvolvimento do setor, a produção agrícola vem aumentando ano a ano, devemos nos perguntar: quem deve comemorar a safra agrícola?
As respostas poder ser variadas e dependem do referencial.
Para o produtor rural, devemos enaltecer o espírito empreendedor deste verdadeiro alicerce da economia nacional, uma vez que grande é a sua participação na geração de riquezas e significativa é a sua contribuição na balança comercial do País. Contudo, a comemoração (por este segmento) dos resultados obtidos é pouco expressiva, na medida em que os lucros têm sido reduzidos, mas, por via das dúvidas, ainda é possível continuar rezando, para que pelo menos haja possibilidade de continuarem no mercado, ‘‘competindo’’, mesmo em desigualdade até com alguns dos nossos ‘‘irmãos’’ mais próximos da América Latina.
Para o setor de transformação dos produtos agrícolas, é preciso comemorar, sim, tendo em vista que existe uma grande tendência de manutenção dos níveis de consumo de alimentos pela população de forma geral, em função do sucesso do Plano Real neste aspecto específico. Além disso, cada vez mais ocorre a valorização dos produtos industrializados, numa verdadeira escala de agregação de valores. Pode-se ainda afirmar que o processo de desenvolvimento tecnológico na agroindústria é mais rápido do que no chamado setor ‘‘dentro da porteira’’. Isso normalmente traz economia nos processos de transformação, incrementando os lucros deste segmento com muito mais rapidez.
A indústria de máquinas, equipamentos, defensivos e o setor terciário devem ficar satisfeitos com os resultados da agropecuária. Sem dúvida, todos os negócios nesses segmentos dependem do sucesso do setor primário, sendo que, pela necessidade de uma produção cada vez mais profissional, sempre haverá a necessidade de o produtor manter-se em estreito contato com os avanços tecnológicos e, portanto, consumindo produtos e serviços.
Para os diversos segmentos industriais, comerciais e de serviços (não diretamente ligados à agropecuária), também é interessante comemorar junto com os produtores, principalmente naquelas cidades com maior tradição agrícola no interior do País, onde grande parte dos negócios giram em torno dos resultados da agropecuária, movimentando, em épocas de ‘‘vacas gordas’’, o fluxo de capitais e o processo de geração de postos de trabalho.
Comemorar também é papel dos consumidores assalariados, que representam a esmagadora maioria, tendo em vista que a oferta crescente pode - se harmonizada com a demanda - promover, no mínimo, a estabilização dos preços. E, pelas recentes análises divulgadas por economistas, estamos próximos de um processo recessivo, que diminuirá a demanda, promovendo pressão sobre os preços, no sentido do seu rebaixamento. Assim, mais uma vez, preparem-se os produtores para continuarem com seu patriotismo, pois a saída é plantar - ou plantar.
Finalmente e infelizmente, devemos evitar de creditar qualquer bonificação ou elogio ao governo federal, por mais que a propaganda assim queira caracterizar. Contudo, não podemos impedir que o governo também comemore, o que é natural e louvável, mesmo sabendo que o resultado deste enorme esforço da sociedade produtiva continua sendo pouco incentivado.
- MARCOS ELIAS TRAAD DA SILVA é presidente da Associação Brasileira de Zootecnistas.

mockup