Marcha divide o País, mas é boa
Mirian Guaraciaba
No almoço de anteontem na casa do líder do governo no Senado, José Roberto Arruda, líderes aliados decidiram dar a volta na oposição. Em vez de fazer hoje à tarde a sessão, como queria a esquerda, para estar na Marcha dos 100 Mil, Antonio Carlos abrirá os trabalhos às 9 horas da manhã. ‘‘Depois, todos estarão liberados para marchar’’, ironizou o presidente.
A oposição queria a tribuna do Senado aberta para repercutir possíveis desvios e transtornos na caminhada. Os líderes da passeata temem confusão armada pela extrema direita ou por radicais de esquerda. O governo também. Por isso, estão sendo tomadas precauções, de um lado e de outro.
A marcha dividiu o Congresso, a cidade e o País. A vontade de protestar contra o governo toma conta de muitos setores da sociedade. ‘‘Há clima de beligerância no País’’, reconhecem aliados. Os próprios governistas alimentam este estado de espírito. No Parlamento, quem faz oposição – nos bastidores e, às vezes, publicamente – está também na chamada base de apoio do governo.
Agem como adversários não apenas Luiz Inácio Lula da Silva e Leonel Brizola. Mas Antonio Carlos Magalhães, o presidente do PMDB, Jáder Barbalho, e muitos tucanos que não escondem a irritação com Fernando Henrique. O senador Pedro Simon, do PMDB gaúcho, não perdeu a oportunidade de mostrar esta insatisfação: ‘‘Se a marcha é dos sem-rumo, como disse o presidente, ele deveria estar à frente, comandando a massa’’.
É bom, muito bom, o protesto nas ruas contra os abusos do governo, a falta de assistência médica, a eterna angústia para colocar o filho na escola, o crescente desemprego que leva milhões de pessoas a disputar na unha, uma vaga no Banco do Brasil. Melhor ainda se os funcionários públicos engrossarem o coro contra os baixos salários e a política do não-reajuste praticada há cinco anos. A manifestação popular é saudável em qualquer ocasião, vindo de qualquer setor da sociedade. Mesmo entre aqueles que elegeram o governo que está posto. Aliás, eleito em primeiro turno e ratificado para um segundo mandato.
Mais do que bom e saudável, é democrática a Marcha dos 100 Mil. Faz parte do jogo. O governo pode não gostar, mas deve ver e ouvir de perto a insatisfação da população. Ainda que o presidente Fernando Henrique diga que é corajoso e necessário o mal que tem provocado ao País com os ajustes econômicos e suas dramáticas consequências.
Mas nada terá êxito se a marcha sobre Brasília for desvirtuada e trouxer resultados desastrosos. Perderão a razão todos os que apelarem para bate-boca, baixarias ou agressões. A responsabilidade quanto aos rumos e os desdobramentos da grande manifestação planejada para Brasília está dividida entre seus organizadores e o poder constituído.
O primeiro não pode permitir que os militantes abusem, passem dos limites. O segundo tem que aceitar demonstrações pacíficas contra o governo. O grito de guerra não pode ser o impeachment de Fernando Henrique. Se um dia brigamos por eleições diretas, temos razões de sobra para querermos diretas sempre. Ou os partidos de esquerda teriam outra forma de chegar ao poder?
‘‘Fora, FHC’’ poderá levar os partidos de oposição a um fracasso político previsível, a um desgaste desnecessário. Fernando Henrique não deixará o governo porque a oposição quer, mesmo que sua popularidade bata no fundo do poço. Se não gostam de Fernando Henrique, é hora de trabalhar um candidato que o derrote em 2002.
O presidente está impopular, em baixa. Esse é o fato. Se a população está desgostosa com seu governo, então o grito deve ser ‘‘Basta, FHC’’. Basta das políticas econômica e social postas em prática. Do programa de privatização executado de qualquer maneira, impondo à população um preço alto pelo açodamento oficial.
Na Marcha dos 100 Mil, se houver respeito ao governo, ao patrimônio e à população, pode-se exigir reciprocidade do presidente.
- MIRIAN GUARACIABA é jornalista em Brasília

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