Marcha da família... e o exército
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sábado, 22 de março de 2014
Fabio Galazzo 
Fabio Galazzo
Aconteceria ontem, em São Paulo, Rio de Janeiro e mais 200 cidades, a reedição da "Marcha da Família com Deus", manifestação pública ocorrida originalmente entre 19 de março e 8 de junho de 1964, e que foi uma reação às medidas sociais promovidas pelo governo João Goulart e à ameaça comunista que supostamente rondava o País naquele momento. O movimento foi arquitetado e realizado na época pelas elites nacionais e pelo clero. Como resultado, houve a deposição do presidente Jango e a chegada ao poder dos militares dando origem aos anos mais negros de nossa história política.
A reedição de 2014 prometia pleitear uma intervenção militar objetivando a substituição dos políticos corruptos, a moralização dos três poderes e para (pasmem) impedir novamente a ameaça comunista. Como isso seria feito? Ninguém sabe. Em tempos atuais, quando países que passaram por regimes ditatoriais buscam julgar e condenar os agentes responsáveis pelas atrocidades cometidas contra o seu povo, no Brasil surge um movimento que de forma confusa propõe o retorno dos militares ao poder. Na contramão da história, cá estamos nós, novamente. A propaganda anti-comunista, encabeçada pelos EUA no período pós guerra-fria, foi largamente utilizada para justificar barbáries cometidas pelos militares, desde assassinatos e torturas até a desinformação total.
Nos dias de hoje, alguns formadores de opinião, ávidos por poder e popularidade, aproveitam-se de fatores significantes para tentar reavivar esta repugnante tática e desestabilizar o atual governo, explorando o nascimento de uma nova (velha) direita, totalmente intransigente. O surgimento de governos de esquerda pouco democráticos na América Latina, a caótica situação da Venezuela e o eventual apoio ideológico do governo petista em relação a esses regimes (incluem-se aí as visitas e ajudas concedidas à Cuba) são ingredientes poderosos que vêm agindo de forma determinante na manipulação da opinião de parte da população. E mais, as medidas sociais do governo petista ao estilo bolsa família entre outras, vêm suscitando em alguns a sensação de que sustentam uma legião de "desocupados".
Se por um lado o governo relativamente isenta os mais abastados e faz com que a classe média pague a conta de tais iniciativas, e se utiliza desse expediente para garantir seus votos na próxima eleição, por outro, o Brasil tem uma das piores distribuições de renda do mundo, dois lados da mesma moeda. O País vive tempos difíceis, até aí, nenhuma novidade. A corrupção salta mais aos olhos com o espetáculo do mensalão e os estádios da Copa e a indignação também, após os protestos de junho, sistematicamente esvaziados por vândalos e em franca perda de respaldo popular. A sensação de baderna, de impunidade, atua como outro fator contra os "petistinhas comunistas e sua corja". Agravou-se daí, uma espécie de polarização entre a esquerda petista e as alas mais conservadoras da sociedade, enfatizando os religiosos em geral e reacionários de toda ordem.
Ocorre que depois de tantas alianças e conchavos para chegar ao poder, e lá manter-se, ver o PT de hoje como um partido de esquerda requer um esforço descomunal, ou uma boa dose de miopia. Para a decepção do pessoal da marcha, o PT de hoje é apegado às elites e adora o capitalismo, sinto muito. Os demais partido atuam de forma semelhante, não há oposição ideológica. Quanto ao retorno dos militares, mesmo que provisoriamente, trata-se de mero devaneio, improvável e catastrófico. E quem os sucederiam? Os próprios manifestantes não sabem responder a uma pergunta tão óbvia. Deveriam, então, formar um partido próprio e candidatarem-se, respeitando as regras do jogo democrático. De qualquer forma, cogitar o retorno de um governo militar é uma gigantesca falta de respeito com a história política do País, é desprezar e desrespeitar a memória de muitas pessoas que foram torturadas e mortas para construir um Brasil melhor. Além de ignorância, é ingratidão.
FABIO GALAZZO é advogado


