MARCAS DA DOR - Sobrevivendo à morte
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de agosto de 2007
Célia Polesel<br>Reportagem Local 
Ari Friedenbach, advogado, pai da adolescente Liana assassinada em Embu-Guaçu, na grande São Paulo, em novembro de 2003, esteve em Londrina nessa semana participando da jornada municipal sobre responsabilidade juvenil. Ele defende a responsabilização do menor que comete crime hediondo. Os cinco assassinos da jovem foram presos, três dos quatro adultos foram julgados, o chefe do grupo está preso, mas ainda não foi julgado, e o menor está internado em um hospital-prisão. Além da morte da filha a família passou por outras perdas. ''No dia da morte da Liana minha sogra deitou e não levantou mais, teve depressão, AVC e morreu depois de dois anos. Meu pai, que estava ótimo, teve um câncer e três meses depois morreu.''
Como lidaram com a perda da Liana?
A maior preocupação foi tentar preservar meu filho, fazer com que conseguisse superar da melhor maneira possível. Nós três tivemos e temos ajuda psiquiátrica e fizemos uma opção muito clara de sobrevivência, somos sobreviventes. A sensação é essa. Para mim teve um aspecto muito importante nessa manutenção de equilíbrio, ou na tentiva de mantê-lo, essa minha projeção política apartidária no país. Isso tem um aspecto extremamente terapêutico porque tenho oportunidade de falar, indignar-me, isso com certeza ajuda a pôr para fora um pouco da dor. Eu canalizei dessa maneira, minha esposa é muito espiritualizada e se fortaleceu por esse caminho.
Depois do fato mudaram hábitos, comportamentos?
Antes de acontecer tudo isso já era preocupado com segurança, naturalmente que isso se amplificou. Logo que pude comprei um celular para minha filha para poder monitorá-la. Hoje, quando meu filho que vai fazer 16 anos sai, fico muito angustiado e preocupado. Ainda que ele esteja no lugar mais seguro possível. Por exemplo, final de semana passado ele estava na casa de uma amiga que conheço a mãe desde a infância e eu estava muito preocupado. Com o quê? Não sei. Acho que fiquei um pouco mais neurótico do que era em função da história que vivemos, da cidade em que moramos. São Paulo é uma cidade muito violenta.
Vocês ficaram morando no mesmo lugar?
Ficamos, porque a Liana não morreu em casa, então não foi uma coisa que marcou naquele lugar. Tivemos mais vontade de mudar quando fomos assaltados, seis meses depois da morte dela. Na verdade eu não quis mudar de casa, mas de país, só não fomos embora porque não deu certo, dois dias depois do assalto estava nos EUA procurando emprego. O assalto foi a gota d'água. Foi muito traumático, eles foram especificamente atrás de mim. Há pessoas que acham que porque você aparece na TV tem grana, imagino que seja isso, porque entraram em um outro apartamento perguntaram se era ali como não era, saíram e foram no meu.
Para quem como vocês é sobrevivente o que aconselha a fazer para poder superar?
Acho muito difícil dar conselhos, nem tenho condição para isso na verdade. A única coisa que posso dizer para alguém que passou por um trauma tão pesado é tentar se ligar aos vivos. Não montamos um altar para a Liana em casa, tentamos viver a morte dela, por exemplo, falamos dela em casa com frequência, naturalidade, dos maravilhosos anos que ela viveu conosco, do horror que foi e como foi a perda da Liana, vivenciar esse trauma é uma forma de superá-lo. Claro, cada um tem sua forma, há pessoas que não conseguem falar sobre o assunto e isso é péssimo para poder continuar andando para frente. Outro fator é o meu casamento, estou casado há 20 anos e tenho um relacionamento superlegal, a relação com minha mulher é muito boa, isso também é fundamental, porque um casamento sobreviver a um trauma desses é milagroso. Se não tiver uma história de vida a dois anterior muito boa não continua.


