Mãos ao alto!
Ricardo Prochet
Meu saudoso pai, bem-sucedido empresário londrinense, ensinou-me desde a mais tenra idade a estabelecer as relações de causa e efeito de todas as minhas atitudes. Ensinou-me com maestria que o papel essencial do administrador é o de interferir no futuro dos negócios, sempre fazendo uma análise profunda da situação atual e qual projeção podemos encontrar, considerando as possíveis sequências de evolução que forem detectadas.
Vejamos então a recente atitude do governo, de baixa aceitação popular, quanto a adoção de medidas de contenção ao crime, incluindo a proibição do comércio de armas que a meu ver será somente mais um conjunto de ações cuja administração será custosa à sociedade e não resultará o sucesso esperado, pois por ser de cunho eleitoreiro, não ataca a real causa do problema, que demanda tempo bem maior do que o existente até as próximas eleições.
Para sua edição especial de dezembro deste ano, a respeitadíssima revista norte-americana ‘‘Time’’ está fazendo uma seleção das 100 piores idéias. Qualquer pessoa pode dar seu voto. Entre as já votadas, há sugestões para todos os gostos: o Titanic, o programa espacial de Uganda e a venda de queijo em embalagem aerosol, por exemplo. Atualmente, a ‘‘pior idéia’’ que lidera o ranking é o telemarketing, com 12% dos votos, seguida de perto pela Lei Seca, com 10%. No entanto, ainda há tempo para incluirmos nosso Plano Nacional Contra o Crime que com certeza roubará alguns votos das atividades acima citadas.
Por falar em Lei Seca, justiça seja feita em estar entre as péssimas idéias desse século. A mesma me parece com esse nosso plano, pois construiu cadeias para abrigar os infratores ao invés de conscientizar o povo em relação aos perigos que estariam expostos uma vez em contato com a bebida alcoólica. A lei que proibiu a bebida nos Estados Unidos de 1919 até 1931 foi imposta por grupos sociais puritanos que forçaram sua aprovação pelo Congresso sem avaliar correta e cuidadosamente as consequências da tal ato.
Os EUA há décadas deram início ao trabalho interno para diminuição da criminalidade e os frutos começam a ser colhidos nos dias de hoje. Há sete anos a taxa de criminalidade está em queda nos EUA. A tendência foi recentemente confirmada por um relatório do FBI. Em 1999, o número de crimes foi 5% menor do que no ano anterior. Os EUA se transformaram, efetivamente, num dos países mais seguros do mundo. No ano passado, houve apenas seis homicídios para cada grupo de 100 mil pessoas. No Brasil, em 1998, o índice foi quatro vezes maior.
Os motivos apresentados são inúmeros. No entanto, os mais fáceis de se compreender são que o crescimento da economia americana, que nos últimos dez anos vem colecionando cifras altamente positivas, aliado aos esforços para diminuição do tráfico mundial de drogas e os programas comunitários de reabilitação social teriam sido, juntos, as grandes vedetes do programa como um todo.
O nosso programa tupiniquim e eleitoreiro prevê a contratação de mais policiais, porém continuaremos a pagar-lhes salários indignos para sua subsistência mínima, não ofereceremos adequado treinamento e os proveremos com condições de armamento inferiores às dos bandidos, o que é claramente atacar o efeito e não a causa, assim como o aumento do número de vagas nos presídios (e não demandará muita inteligência para perceber) não resolve o problema. Aliás, adiciona mais um aos existentes, vez que esse aumento necessariamente implicará em mais gastos seja por via de administração dos presídios, ou por mão-de-obra, alimentação dos infratores etc.
A solução para a criminalidade no Brasil demanda tempo. Ela passa por um programa de investimento macrossocial que garantirá ao jovem brasileiro a certeza de que a convivência pacífica e ordeira lhe trará mais chances de progresso e sucesso na vida do que o envolvimento com o crime organizado. Precisamos oferecer a esses brasileiros oportunidade de escolher qual caminho a seguir para que não terminem como no diálogo entre Alice no País das Maravilhas com o gato ‘‘Cheshire’’, no qual Alice, diante de uma encruzilhada pergunta ao sonso animal sobre qual caminho deveria ela seguir e o gato habilmente responde que depende para onde ela quer ir, pois se ela não fosse capaz de responder, então qualquer caminho havia de servi-la.
- RICARDO PROCHET é administrador de empresas, professor universitário, consultor e conselheiro de empresas em Londrina
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