Depois de Ciro Gomes só poderia dar mesmo Mário Covas. Duas raríssimas espécies de ‘‘tucano bravo’’ que, não se sabe porquê, tem o seu ‘‘habitat’’ em São Paulo e no Ceará. Alguns também dizem que já foram vistos outros exemplares de ‘‘tucano bravo’’ volitando por aí, como o ministro Sérgio Motta e o deputado Domingos Leonelli. Mas a maioria dos tucanos são aves mansas que podem ser criadas em cativeiro, nas gaiolas, e cujo maior prazer é ostentar a rica plumagem.
Talvez tenha sido esse o motivo da indignação de Mário Covas - a mansidão da tucanada que vê as bandeiras do PSDB serem esgarçadas em benefício de alianças que ele e um grupo consideram duvidosas e que foram usadas para acertar a reeleição presidencial, sem fazer nada, segundo esses críticos.
Mário Covas fez o que muita gente gostaria de ter feito, mas não tem coragem: chutar o balde com toda força ao desistir de se candidatar a reeleição para o governo de São Paulo.
O silêncio de Covas, a partir de agora, será o mais barulhento possível e já está obrigando o PSDB a repensar a sua atuação. Isso quer dizer o seguinte: Mário Covas com sua decisão coloca na mesa a pergunta que não quer calar. A pergunta que incomoda toda essa gente: vale a pena uma reeleição a qualquer preço?
A análise que se faz sobre a desistência de Mário Covas de disputar a reeleição é que em primeiro lugar ela é séria, não é de brincadeira, nem para comover corações. Em segundo lugar, Mário Covas tem muito mais a ganhar do que a perder nessa manobra. Ele sabe disso. Ele sabe que quem dança são os outros, os deputados estaduais e federais paulistas, o partido dos tucanos e o governo central.
O estrago é tão grande que sem Covas é mais difícil aumentar o número de deputados do partido. Resultado: enfraquecimento de toda a estrutura tucanal e, por consequência, do governo central. Sem um nome que tenha lastro em São Paulo também fica mais difícil uma vitória tranquila de Fernando Henrique na sua tentativa de reeleição junto ao maior eleitorado do país.
E para Mário Covas seria mais cômodo assistir a tudo de uma torre de marfim. Apontar as falhas, fazer críticas sem participar do processo. Caberia a Covas finalizar o seu trabalho, acertar as finanças de São Paulo e depois ficar esperando o próximo momento. Talvez o momento de se candidatar à Presidência da República em 2002. No fundo, o seu sonho maior.
Esse é o caso de Mário Covas. O de Fernando Henrique é mais complicado porque apesar de tudo ele continua sendo candidato único. E candidato único é péssimo - tropeça nas próprias pernas. Qualquer acidente que seria resolvido com um band-aid, em situação normal, vira crise de septicemia.
Está aí o doutor Antônio Ermírio de Moraes que anda dizendo que Fernando Henrique não pode pensar que a sua eleição é líquida e certa. Educação, saúde, desemprego e a crise política são para Antônio Ermírio os principais motivos para considerar que a situação do presidente não é tão confortável assim.
As falhas se acentuam e as qualidades sempre são criticáveis. Mas até aí tudo normal. O mais difícil é que Fernando Henrique não pode, por assim dizer, fazer uma volta às raízes como querem Covas e outros históricos do PSDB porque toda a costura do governo ficaria prejudicada. Afinal de contas não se pode menosprezar um Antônio Carlos Magalhães, por exemplo.
Donde se conclui que Fernando Henrique precisa logo arranjar um adversário.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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