Manifesto inoportuno
Recentemente, circulou no meio empresarial um manifesto de apoio à política econômica do presidente Fernando Henrique Cardoso, repleto de boas intenções, redigido de forma aparentemente ingênua, mas num tom decididamente maniqueísta. De acordo com o documento, os recentes avanços da economia brasileira (redução do desemprego, crescimento nas vendas da indústria e do comércio e tendência de queda nos juros) estariam sendo colocadas em risco pelas denúncias de troca de favores entre o ex-secretário da presidência da República, Eduardo Jorge; e o juiz foragido Nicolau dos Santos Neto, o Lalau. É claro que nenhum brasileiro pode, em sã consciência, torcer contra tais avanços, ainda mais se sabendo que foram conseguidos a duras penas e com o sacrifício de milhões de pessoas.
Por outro lado, por mais favoráveis que eles possam ser, o preço da sua continuidade não pode ser o de desqualificar perante a opinião pública as suspeitas e denúncias que a mídia traz diariamente envolvendo políticos aliados e até mesmo homens de confiança do governo.
Todos nós prezamos as recentes conquistas da política econômica e torcemos para que elas continuem e sejam ampliadas. Mas também queremos que todas as denúncias sejam apuradas e devidamente esclarecidas, com a consequente punição dos culpados. As duas coisas, contudo, não devem ser misturadas.
Menos de uma semana depois que o manifesto empresarial foi divulgado pela mídia, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, lançou a idéia de que os sucessos obtidos na economia não deveriam ser contaminados pela sucessão de escândalos e denúncias, que, na visão oficial, serviriam apenas para que os partidos oposicionistas tomassem a dianteira da maratona eleitoral.
Curiosamente, alguns dias depois de lançada a idéia de se defender a governabilidade, os estrategistas do Planalto enviaram ao Congresso a oitava versão da reforma tributária. Se as propostas anteriores não obtiveram o mínimo de consenso entre os agentes econômicos, esta última foi, nas palavras do governador Mário Covas, de São Paulo, um completo desastre. Ela conseguiu a proeza de desagradar o setor produtivo, a sociedade civil e os assalariados ao mesmo tempo. Parece coisa feita de propósito!
De tudo isso, o leitor pode tirar algumas conclusões. A primeira delas é que não está nada claro, pelo menos durante as crises políticas, a posição oficial do governo, nem quem fala por ele. A segunda é a divisão entre o PFL e o PSDB, visando às eleições de 2002. E a terceira é que a área econômica do governo é contra qualquer tipo de reforma tributária.
É necessário, com urgência, mudar esse cenário, subordinando-se a área econômica aos justos reclamos da sociedade brasileira.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)
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