Observando os desdobramentos das manifestações das últimas semanas, faz-se necessário uma reflexão sobre a nossa democracia, bem como seu limite e problema da representatividade. Ora, de uma pauta específica, que era o movimento do passe livre, as manifestações ocorridas em todo País acabaram ganhando proporções gigantescas cujas pautas tornaram-se extremamente heterogêneas.
Dessa forma, é preciso refletir e questionar se o nosso contrato social de fato está nos proporcionando liberdade, ou ainda, se o soberano está conseguindo manter harmonia social e, principalmente, proporcionando liberdade aos indivíduos.
Sabemos, por via de Rousseau, que necessitamos de um contrato social. Lembremos que, nós humanos, já perdemos nossa liberdade natural, portanto, exige-se uma liberdade civil. O contrato social vem como um mecanismo para atingirmos tal intuito. Aos olhos de Rousseau, o soberano é o povo. Porém, paradoxalmente, o cidadão é soberano e súdito ao mesmo tempo. Pois, ele teoricamente contribuiu para a criação da autoridade, mas é obrigado a seguir leis estabelecidas.
Ora, se nossas leis são de fato "vontade geral" e expressão do soberano, por que tanta indignação nas ruas? Esse é um questionamento difícil de responder nestas linhas, mas alguns apontamentos podem ser feitos.
Primeiro, nossa democracia representativa apresenta sérias limitações na participação da vida pública pela maioria dos cidadãos, na qual estes acabam possuindo um acesso nas decisões políticas extremamente esporádicas, quando não somente no dia da eleição. O segundo problema possível de refletir é a questão da individualidade na modernidade. Afinal, para o pensamento político rousseauniano, os interesses arbitrários do indivíduo devem dar lugar a uma construção coletiva, permitindo assim que todos possam ser iguais em seus direitos.
Por fim, o esvaziamento e desinteresse no que se refere aos assuntos públicos. Assunto bastante trabalhado por outros pensadores modernos, como Hannah Arendt, que nos mostra um grande problema para a construção da vontade geral, que necessita da participação direta do povo.
Nossas desigualdades sociais também mostram que esta democracia está longe de ser aquela idealizada por Rousseau. Afinal, a busca da igualdade é um dos pressupostos para atingir a liberdade.
Nossa distribuição de renda é cada vez mais polarizada, e essa desigualdade econômica torna-se incompatível com uma democracia que necessita a participação efetiva do povo. Com este problema econômico histórico, não podemos construir e concretizar uma vontade geral.
Essas manifestações podem representar uma transição de nossa democracia, um interesse maior pelos rumos políticos bem como uma participação mais acirrada ao debate público. Afinal, as mobilizações estão questionando condutas e estruturas do Estado e mostrando aos líderes governamentais que o soberano está insatisfeito, que é preciso repensar alguns caminhos e até radicalizar soluções.
Espero que essas manifestações proporcionem mudanças e reformas políticas. Estas, capazes de sanar em parte nossas dificuldades, desigualdades e limitações na participação da vida pública.

ALEXANDRO KICHILESKI
é graduando em Ciências Sociais em Canoinhas (SC)



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