Imagem ilustrativa da imagem MANIFESTAÇÕES - Sem alternativas para sair às ruas
| Foto: Rodrigo Lôbo/Fotos Públicas



O presidente Michel Temer (PMDB) alcançou a pior avaliação entre todos os presidentes do País desde a campanha pelas Diretas Já. O governo é ruim ou péssimo para 77% dos brasileiros e somente 3% o consideram bom ou ótimo, segundo pesquisa Ibope encomendada pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) e divulgada na última quinta-feira (28). A insatisfação aumenta desde que Temer assumiu a Presidência e se intensificou com a chegada da segunda denúncia contra ele ao Congresso, por suspeita de organização criminosa e obstrução da Justiça. Diferentemente de outros momentos de crise política nacional, porém, o silêncio reina nas ruas.

Depois do impeachment de Dilma Rousseff (PT), existia a expectativa de que a população continuaria na luta contra a corrupção e não foi o que ocorreu. Tanto críticos quanto defensores da petista não mostraram capacidade de mobilização para cobrar correção dentro do sistema político e parecem simplesmente assistir às negociatas, expostas pela mídia, para a manutenção do poder pelo grupo de Temer. Difícil é entender o porquê.

Para o historiador Maximiliano Martín Vicente, professor do programa de Pós-Graduação em Comunicação Midiática da Unesp (Universidade Estadual Paulista), o problema é a falta de alternativas. A generalização de partidos envolvidos em crimes de corrupção desestimula, mas ele credita o problema ao fato de a população não enxergar solução dentro do atual sistema político.

O que difere o momento atual de outros, quando grandes crises levaram a mobilizações populares?
Antes do impeachment da Dilma (Rousseff, deposta em 2016), existia uma possibilidade de alterar a estrutura de poder. O PT foi identificado como um partido muito envolvido com a corrupção, enquanto denúncias sobre Michel Temer não tinham tanta visibilidade. As forças da direita se organizaram e capitalizaram o descontentamento da população, acenando com uma alternativa, a do PMDB. Depois do impeachment, se descobriu que a corrupção era muito mais generalizada, inclusive com suspeitas graves sobre o atual presidente. Tanto que o Congresso recebeu uma segunda denúncia contra ele, fato inédito no Brasil.As pessoas não enxergam mais alternativas no momento atual e pensam que, caso Temer perca o mandato, quem entrar terá pouco tempo para fazer algo. E quem ficaria no poder seria Rodrigo Maia (DEM, presidente da Câmara dos Deputados), que também não agrada. A população continua insatisfeita, mas não vai à rua, o que não quer dizer que esteja desatenta. Na minha visão, pensam que, se não se oferece alternativa, para que ir às ruas?

Até que ponto a rivalidade política e a divisão do País entre defensores da direita e da esquerda interferem?
Esse jogo entre dois partidos acabou. Tanto PT quanto PSDB têm problemas graves de corrupção e isso ficou claríssimo para a população. O que acontece com Aécio (Neves), com o Lula (Luiz Inácio Lula da Silva), são sinais claros de que a polarização acabou. Agora, a consequência dessa polarização não foi benéfica para o País, porque PSDB e PT não abriram a possibilidade de novos candidatos além dos tradicionais. O quadro que se apresenta é fruto de consequências bastante negativas dessa polarização.

Então o problema é a falta de uma liderança para mobilizar a população?
O grande dilema que enfrentamos é que o sistema político atual está fracassado. Seja direita, esquerda, centro, tanto faz. Temos um presidencialismo de coalizão, então, para ter maioria e governar, é preciso fazer alianças. Desde (Fernando) Collor, FHC (Fernando Henrique Cardoso), Lula, Dilma e Temer, essas alianças provaram que têm o custo de matar um projeto político. Isso impede que se tenha um candidato viável. Seja quem for que disputará a eleição no ano que vem, no sistema que temos, estará fadado ao fracasso. Dito isso, abre-se a possibilidade para candidatos que se colocam como não identificados com a política tradicional. Aventureiros, embora possam aparecer, terão de ter uma vinculação muito forte para se eleger. Mas, no quadro atual, não há quem represente uma novidade absoluta para dar conta dos problemas do País.

Se considera que temos que mudar até o sistema político, como avalia a atuação de entidades como OAB, sindicatos, movimentos sociais e associações do setor produtivo nesse momento?
Essas entidades ficarão quietas até que se definam os candidatos. Qualquer um que interesse a eles será o que receberá apoio. As alianças vão permitir que esse presidente possa ter uma administração diferenciada, mas atendendo a interesses desses grupos, e não aos da população. No quadro atual, qualquer apoio que manifestem seria um tiro no escuro. Agora, de todos os setores, o que mais preocupa é o setor produtivo, que tem uma bancada expressiva na Câmara dos Deputados, que é eleita em função do comprometimento com o agronegócio, bancos, indústria e assim por diante. O problema todo é que a população não consegue enxergar isso. Não culpo meios de comunicação ou qualquer pessoa. Chegou o momento em que, ou a população toma consciência de que a solução dos problemas do País passa pela política, ou vamos ficar nas mãos de pessoas que aproveitam o momento para se aliar a essas forças e ganhar uma eleição. É o caso do Temer. Ele faz reformas porque não deve satisfação à população e fala isso constantemente, de forma muito irônica. Não é compromisso com o País, é com o setor produtivo e, por isso, faz as reformas que faz. Ninguém reage porque não enxerga o que isso implicará para o futuro. Se a população não acordar até 2018, será eleito outro que tenha um pouco mais de apoio, em um novo pacto que não levará em consideração a população. É preciso discutir política, sem paixão, sem ser irracional, no âmbito do que é uma democracia participativa.

O apoio do empresariado às manifestações é mais importante do que de outras entidades organizadas?
No momento atual, sim, porque financiam e congregam grupos fortes. Os grandes grupos de comunicação surgem com planejamento organizado, criam um discurso que atinge as pessoas, mas sempre de forma dissimulada. Porque os grandes devedores do País são os grandes empresários. Quando eles colocam na avenida Paulista a mensagem "quem é que vai pagar o pato?", com certeza não serão eles. Já faz muito tempo que quem paga o pato é o trabalhador. Uma manifestação ganha visibilidade quando se entra um grupo que tem dinheiro, tem apoio dos meios de comunicação e de grupos políticos fortes no Congresso. Embora, nas últimas vezes, tenha ficado claro que também essa visibilidade pode ser manipulada. Mas a população está sentindo que os problemas não dizem respeito só ao poder do Estado. O setor empresarial também tem responsabilidade porque os grandes devedores são do setor produtivo.

A rejeição ao governo Temer e ao sistema político atual não poderia catalizar forças?
Isso vai acabar ocorrendo. Em 2018 teremos dois cenários. Se a situação econômica melhorar, mas melhorar mesmo, e Temer estiver no comando do País, o capital político dele poderá influenciar a escolha de um candidato. Isso se não ocorrer um novo impeachment até lá. Por outro lado, se continuar como está, com altos índices de desemprego, com esse imobilismo, todos vão querer distância do Temer. Nesse segundo quadro, ninguém vai querer apoio do PMDB e será preciso relembrar como os candidatos se posicionaram nesses últimos tempos. Se o Temer sobrevive, é porque comprou a maioria do Congresso. Há deputados que trocaram o voto deles por benefícios, no pior momento político do Congresso, tudo feito à luz do dia, anunciado para todos. Na eleição, será preciso cobrar o que acontece hoje para então buscar algum tipo de transformação.

Com tudo o que ocorre no Congresso às claras, como o senhor diz, existe a necessidade de um ponto de ruptura, um fundo do poço, para que o brasileiro se mobilize ou esse processo é construído ao longo do tempo?
Nas aulas que dou digo que, se olharmos nossa linha do tempo, tivemos a primeira eleição em que todos puderam votar em 1989. De 1500 a 1989 não tivemos uma democracia. De 90 para cá, não estamos em situação tão ruim. Tudo bem que se elegeu o Collor e deu no que deu. O seguinte, FHC, foi eleito pela elaboração de um plano econômico forte. O seguinte, Lula, foi um trabalhador que chegou à Presidência, o que é algo muito difícil. A seguinte, uma mulher, a mesma coisa. Mas tudo isso gerou uma grande frustração pelo que já falei, da necessidade de coalizão entre os partidos. Eles não tinham força para implementar um governo com as características que imaginavam. Mas não se pode dizer que a população não tem noção, porque já escolheu um trabalhador e uma mulher. A questão é que a consciência política não deve existir somente no dia da eleição. Temos de aprender, e muito, porque é no cotidiano que ocorre a tomada de medidas por parte do governo federal. Durante a eleição, não há quem não fale de meio ambiente, do direito das mulheres, mas no dia a dia é preciso ver se há compromisso com a fala. É nessa parte que entendo que nossa consciência política precisa melhorar. As pessoas têm de colocar na cabeça que podem solucionar parte do que acontece ao eleger, vigiar, controlar e interferir no sistema político. Chegamos a um momento bastante delicado, econômica e politicamente, e é preciso sair dessa situação, o que pode ocorrer pela política, desde que estejamos atentos, porque 2018 chega já.

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