A rápida visita de Nelson Mandela ao Brasil deu uma boa mexida na morna campanha eleitoral para a presidência da República. O presidente da África do Sul acabou servindo, sem querer, de cabo eleitoral a Fernando Henrique e Lula.
FHC recebeu Mandela na condição de chefe de Estado e de governo, mas, inevitavelmente, apareceu nas páginas dos jornais como o candidato à reeleição. Lula não quis perder esta grande oportunidade e posou, junto com a linha de frente do PT, para fotos com o líder sul-africano.
Mandela foi imparcial no tratamento aos dois e pródigo em elogios à estabilidade econômica e política promovida por FHC. Também elogiou a menina dos olhos do PT, o programa bolsa-escola - que já foi incorporado ao programa de FHC.
Ao contrário da elegância com que Mandela ingressou à sua revelia na disputa presidencial brasileira, o ministro inglês Peter Mandelson, também em visita oficial ao Brasil, entrou na campanha batendo duro em Lula. Para ele, o petista tem ‘‘idéias retrógradas’’ e sua vitória seria uma ‘‘surpresa’’, uma vez que FHC tem uma imagem ‘‘muito forte’’ entre a comunidade internacional.
Aos elogios de Mandela, o PT reagiu com sorrisos e orgulho. Às críticas de Mandelson, o partido reagiu com o mau humor habitual quando sofre ataques de quem quer que seja. Em nota oficial, o PT acusou Mandelson de ser ‘‘um vulgar propagandista de uma nebulosa terceira via, um indiscutível marqueteiro de FHC, tamanha foi sua postura bajulatória’’. Se a acusação fosse a um candidato, a briga com certeza iria parar na Justiça.
Mau humor à parte, o fato é que o PT virou vidraça. Em sua terceira tentativa consecutiva de chegar ao poder federal, o partido e o seu candidato, habituados a jogar pedras em seus adversários, estão sofrendo ataques de seus críticos. Sinal claro de que o time de Fernando Henrique está jogando duro para decidir a eleição já em outubro.
O PT não está conseguindo sequer respirar. Até mesmo a louvável iniciativa de anunciar um programa de governo antes de candidato a reeleição acabou surtindo efeito contrário: as propostas da frente de oposição vêm sendo sistematicamente consideradas inconsistentes e inviáveis por seus adversários, que também perguntam de onde virá o dinheiro para colocá-las em prática.
Em meio à tempestade de críticas contra Lula, o comando da campanha de FHC começa, enfim, a esboçar um programa que terá como base as realizações do governo. É possível que fiquemos sabendo como o candidato à reeleição pretende atacar o desemprego e dar ênfase aos principais problemas na área social, que está devendo ao País. Enquanto isso, o que fica valendo mesmo é a neutralidade de Mandela. Para os dois candidatos.
- KIDO GUERRA é jornalista em São Paulo

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