Mandato compartilhado - Miguel Ignatios
Mandato compartilhado
Miguel Ignatios
O segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso começou com uma sucessão de erros que dão a nítida impressão de que algumas decisões vêm sendo tomadas às pressas e sem passar, antes, por um processo criterioso de avaliação. Por tal motivo, pouco tempo depois de anunciadas, elas têm voltado ao Planalto.
Foi assim com o episódio da troca de Chico Lopes, na presidência do Banco Central (BC), em janeiro passado. Mais recentemente, FHC teve de passar pelo constrangimento de nomear um delegado para chefiar o Departamento da Polícia Federal e alguns dias depois aceitar o pedido de demissão do indicado.
Na primeira semana de julho, aconteceu nova sucessão de equívocos e de constrangimentos. Após ter enviado uma Medida Provisória (MP) ao Congresso para conceder incentivos fiscais, destinados a viabilizar a implantação de uma fábrica da Ford na Bahia, FHC foi obrigado a rever alguns deles para evitar pressões e represálias de parceiros do Mercosul e da Organização Mundial do Comércio (OMC).
A análise superficial desses três episódios sugere que, por qualquer motivo, temporariamente ou não, FHC tenha decidido não apenas consultar, como é de praxe, mas também compartilhar as decisões com os aliados.
Para alguns analistas, FHC teria ficado enfraquecido após o caso da escuta telefônica, que precedeu o leilão de algumas teles, no qual alguns de seus mais competentes ex-ministros e assessores de primeiro escalão tiveram um comportamento no mínimo dúbio.
Na opinião de outros, o desgaste natural que se seguiu à desvalorização estabanada e tardia do real, em janeiro, teria inibido a iniciativa presidencial. A resposta à vacilação de FHC teria sido a deflagração do processo sucessório, já no primeiro ano de mandato.
Há, ainda, um terceiro grupo de analistas que prefere atribuir os seguidos erros de avaliação de FHC à prioridade absoluta que ele teve de dar ao ajuste fiscal exigido, negociado e revisto pelo FMI durante o primeiro semestre do ano. Para estes, a urgência dos temas econômicos acabou por deixar de lado os assuntos estritamente políticos.
Quaisquer que tenham sido os motivos, uma coisa é certa: se FHC não reagir, o restante do seu mandato acabará minado por um processo irreversível de sarneyzação. Isso equivaleria a abdicar de todo e qualquer comando para lotear o poder, de acordo com a força de cada partido, que dá sustentação ao governo.
Nós, empresários, não queremos que isso aconteça. Pois seria o mesmo que jogar no lixo três anos e meio de um mandato legitimamente conquistado nas urnas. Ao contrário, temos certeza de que o presidente FHC saberá aproveitar a oportunidade, conquistada pelos excelentes resultados obtidos até agora na execução competente das medidas do ajuste fiscal, para retomar a agenda política e colocá-la em ordem.
Aliás, a reforma ministerial, já anunciada, pode e deve ser o início da retomada do poder de decisão pelo presidente da República. Com ela, espera-se também a definição clara das forças que apóiam o governo, mesmo que eventualmente venham a diminuir. Se alguns dos atuais aliados, porventura, quiserem abandonar o barco, visando às eleições de 2002, que o façam já.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)
E-mail: [email protected]





