Males que o improviso pode causar
O presidente Fernando Henrique gosta de falar de improviso. É mania de professor universitário. Trata-se de uma maneira sofisticada de mostrar erudição, unir pensamentos, fazer citações surpreendentes, citar pensadores e lembrar teses. Em salas de aula, o hábito costuma consagrar o mestre. Na política, escorregões verbais criam situações de constrangimento. Às vezes, sobretudo em momentos de crise, é melhor ler que improvisar.
O discurso de FHC deveria tratar, somente, do lançamento da Agenda de Governo: 2001-2002, uma série de iniciativas destinadas a facilitar o trânsito dos potenciais candidatos à sua sucessão por todo o Brasil. É o início disfarçado da campanha sucessória. São ações que vão demandar investimentos da ordem de R$ 25 bilhões em projetos na área social. Só não enxerga preocupação eleitoral no programa quem assim não quiser.
Mas o improviso jogou mais combustível na fogueira de vaidades que arde na Esplanada dos Ministérios. Citar Antonio Carlos Magalhães e compará-lo a Roberto Requião é uma maneira engenhosa de colocar os dois nas páginas de jornal. O senador paranaense agradece. Fazer pública profissão de fé contra a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar corrupção no governo é declaração que constrange o Congresso. A CPI ganhou viabilidade que não tinha há semana.
O presidente chegou, no seu improviso irritado, a falar de impeachment. (Logo a primeira coisa que se pensa é: vamos propor o impeachment do presidente pelo crime de responsabilidade). Ele trouxe o assunto e o colocou sobre a mesa do debate nacional. A grande crise começa com uma bobagem. Alguém diz o que não deve e ouve um palavrão de volta. E aí a casa cai. É a briga de botequim. Pode haver tiro e morte. Ou, se o dono do estabelecimento for esperto, tudo pode terminar numa renovada rodada de chope.
Nessa altura ninguém sabe bem por que está brigando. São tantas as denúncias, o fogo cruzado é tão intenso e ao mesmo tempo tão vazio que é necessário caminhar com cautela extrema. Brigas conexas: ACM x Jader; Jader x Banco Central; Procuradores x ACM; ACM x Senado; Heloisa Helena x ACM; aliança governista x ACM; PFL se estranha com ACM; presidente briga com a classe política; oposição quer a CPI. Confusão pesada. Não é um bom momento para se deixar irritar. Nem cometer improvisos. O presidente já chamou os brasileiros de caipiras, neobobos e vagabundos. Nessa semana, o bate-boca que lavra no Congresso ganhou novo alento como consequência da fala presidencial.
POLÍTICA E ECONOMIA
Em janeiro de 1999 as previsões correntes sobre o futuro da economia brasileira eram catastróficas. Não ficaria pedra sobre pedra. A inflação retornaria com violência, e a recessão atingiria níveis insuportáveis. Nada disso aconteceu. As lideranças políticas entenderam a gravidade do momento e votaram quase tudo o que os técnicos pediram para lidar com a nova realidade do câmbio flutuante.
Agora ocorre o contrário. Os índices econômicos são bons e as previsões melhores. Existe a possibilidade concreta de, pela primeira vez em décadas, o percentual de crescimento ser superior ao da inflação. A crise, agora, é política, apenas congressual. O líder do governo, senador José Roberto Arruda, entende que a situação chegou a seu ponto mais baixo. Tende a melhorar. A nota do PFL a seu ver acaba com parte dos desencontros dentro da aliança governista. As denúncias contra Jader Barbalho ainda vão passar por muitos estágios de análise. É coisa demorada.
Essencial, nesse momento, é reduzir a tensão e começar a votar os projetos necessários dentro da agenda do governo. Arruda acha possível contornar os problemas e retomar a normalidade.
- ANDRÉ GUSTAVO STUMPF é jornalista em Brasília
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