Pobre de um povo cujo ministro da Justiça se envolve em suspeita de algo ilícito e é chamado a depor em inquérito policial. No caso, Márcio Thomaz Bastos. E a denúncia é a de que teria ajudado o ex-ministro Antonio Palocci a tentar encobrir responsabilidades na violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo. A questão não é a figura individual do cidadão mas a sua representatividade pública. O fato denigre a imagem do Governo, enfraquece as instituições e intensifica o desencanto da população com os homens públicos deste país. Depois do episódio da envolvência do ministro da Fazenda que era o homem forte do sistema em denúncia de corrupção e, por acréscimo, do seu pedido pessoal para investigar a conta do caseiro que o denunciava, agora é a figura do ministro da Justiça, intimado a depor na Polícia Federal. A opinião pública já se habituou a descrer da seriedade dos governantes mas ainda guarda um princípio de fé, que se pressupõe inquebrantável, de que um poder que tem nome de Justiça é incorruptível e está acima de qualquer suspeita. Porque, se também esse venha a capitular, nada mais se salvará. Por isso é difícil absorver o fato de que um representante público que tem o emblema de guardião dos princípios da justiça e da moralidade seja mesmo que momentaneamente apeado dessa condição para sentar-se no banco dos investigados. Independente de comprovar-se ou não a acusação, fica essa nódoa, que constrange os cidadãos e tem também repercussão negativa fora do País, por robustecer a corrente pouco lisonjeira da baixa confiabilidade nos governantes brasileiros. Os episódios do ano passado, envolvendo parlamentares e figuras expressivas do governo federal, ainda ressoam, e isto figura no fichário das nações que têm relações mais estreitas com o Brasil. Também o setor privado sofre arranhões, porque a dinâmica dos negócios se estriba na confiança, e se a imagem dos governantes fica turva, causa comprometimentos em todos os níveis. Atitude idêntica de preocupação teria o Brasil se soubesse que, em determinado país com o qual tem relações comerciais e diplomáticas, parlamentares são corrompidos, ministros se envolvem em negócios ilegais e são chamados a interrogatório da Polícia. A continuidade do mal é o fato de que, além da corrupção, pouquíssimos são punidos e devolvem o que subtraíram. Estes são maus momentos vividos pela nação brasileira, pela vergonha a que homens públicos a submetem. Mais que isso, pela quebra do princípio da respeitabilidade que deve existir entre povo e governantes.

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