Desde o período do Brasil Colônia, quando a cultura da cana-de-açúcar e os engenhos eram tocados por trabalho escravo, o estigma do trabalhador nesse campo parece não cessar nunca. Cana e engenhos (leia-se agora as grandes indústrias sucroalcooleiras), com seus senhores, ainda têm essa marca atávica, e este é um mal que ocorre em todo o País, no setor. No Paraná, a usina de Porecatu tem em sua história 30 anos de problemas dessa ordem, desde o excesso de horas de trabalho, em péssimas condições, até salários pagos com atraso.
Agora, em boa hora, parece que houve um despertar para o problema, porque o Ministério do Trabalho e Emprego, no Paraná, e a Câmara Técnica do Setor Sucroalcooleiro começaram a promover reuniões visando pôr um fim nesse calvário. Nesta semama houve reunião em Londrina para discutir os direitos legais e morais dos trabalhadores que atuam no plantio, extração, transporte e transformação da cana em açúcar e álcool.
Os eventos recentes na usina paranaense (com os trabalhadores em greve) deu uma tonalidade forte ao encontro. Fala-se finalmente em diálogo com usineiros e empregados - em todas as usinas do gênero no Paraná - em busca de soluções salvadoras. Pensa-se inclusive na autogestão da indústria de Porecatu, que é a maior delas. Se existe trabalho escravo e semi-escravo no Brasil (este, o dos que trabalham horas a mais e não recebem por isso, em muitas empresas), é nas usinas de açúcar e álcool onde ele mais se acentua, parecendo mesmo uma sinistra herança dos tempos coloniais. Em agosto, só em Porecatu o Grupo Móvel de Combate ao Trabalho Escravo lavrou 200 autos de infração, com 228 trabalhadores encontrados em situação degradante, e outras irregularidades. A mesma fiscalização detectou, no ano passado, 6.700 pessoas em condições idênticas operando nas lidas da cana, em todo o Brasil, 10% delas no Paraná.
Com o estímulo à produção de biocombustíveis, que inclui também aquela matriz energética, a demanda de trabalhadores nessa cultura tende a aumentar. Por isso era mais do que tempo de o Governo intensificar o zelo por essa atividade, protegendo o trabalhador para que não seja prejudicado. Ao menos os primeiros passos nesse sentido estão sendo dados. Foi preciso irromper um maior interesse nacional pelo biocombustível e haver pressões estrangeiras sobre exploração de trabalhadores nessa área para as autoridades brasileiras passarem a olhar mais atentamente para esses obreiros.

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