O destampatório vai atingir seu nível máximo hoje, dia da eleição para as presidências do Senado e da Câmara Federal. Todos os candidatos e líderes dos principais partidos que integram a base de apoio ao governo Fernando Henrique Cardoso chamaram-se, reciprocamente, nos últimos dias, pelo menos de ladrão. Outros pegaram mais pesado, capricharam nos adjetivos, nos superlativos, atingiram genitoras, esposas e alvos escolhidos dentro do universo familiar. É uma das maiores e mais inconsequentes lavagens de roupa suja em público já ocorrida no Brasil.
O Congresso, por intermédio de suas lideranças, está expondo as suas vísceras à visitação pública. O espetáculo, definitivamente, não é recomendável para pessoas de bom senso ou aquelas que gostem de política como exercício da negociação e do entendimento. A corrupção foi banalizada. Um parlamentar acusa o outro de fazer caixa para campanha neste ou naquele ministério. A ser verdade o que afirmam, todos roubam. Está em curso um assalto permanente ao erário. É o crime continuado. As denúncias, que são públicas, apontam para essa conclusão.
Deve haver alguma lógica no processo que iguala a todos por baixo. E cria péssima imagem perante a opinião pública. Além das denúncias meramente verbais, a tecnologia do escândalo está melhorando de qualidade. Há vídeos bem elaborados, transcrições clandestinas de conversas telefônicas, livros, entrevistas, enfim farto material para qualquer Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) ou, ao menos, análise do Ministério Público. É a triste síntese da política brasileira nos últimos tempos. O assunto se transformou em caso de polícia.
A rotina da corrupção é impressionante. Na Sudam e na Sudene são histórias antigas e recorrentes. Pipocam a toda hora. Pelo menos três governadores de Estado disseram a mim, de viva voz, que existem coisas estranhas dentro do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER). Todos me garantiram que levaram as denúncias ao presidente da República. Até segunda ordem, nada ocorreu. Dois governadores afirmaram coisa semelhante em relação a liberação em outros segmentos do governo, aqui em Brasília. Também fizeram as denúncias e apontaram os responsáveis. Não aconteceu nada.
O preço da manutenção da aliança governista está se tornando excessivo, muito além de qualquer previsão que se possa fazer. É uma bancada, digamos, pragmática, que se desentendeu no meio da caminhada para manter o poder, e seus líderes abriram as próprias baterias uns contra os outros. E haja podre. É a fotografia de como o governo consegue juntar votos no Congresso. Impressiona que políticos experientes, com alta quilometragem, estejam fazendo política estudantil.
Há uma tentativa de virar a mesa, de adiar a eleição de hoje e de recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) para garantir a lisura do pleito. Só falta alguém sumir com a urna para que o cenário do destempero fique, afinal, completo.
Os protagonistas podem não estar percebendo, mas a repercussão, do lado de fora, é a pior possível. Afinal de contas, segundo as denúncias dos próprios parlamentares, alguns líderes acumularam fortunas no relacionamento com o governo. Malandragem profissional. É o que eles dizem.
- ANDRÉ GUSTAVO STUMPF é jornalista em Brasília
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