Malan: PT dá 'sinais corretos'
Crítico do PT durante a campanha eleitoral, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, avalia que, depois da vitória nas urnas, o partido está dando ''os sinais corretos''. Malan conta, em entrevista exclusiva à reportagem, que essa avaliação já foi repassada ao presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva. ''Há uma oportunidade de ouro para o partido. Se sinalizações apropriadas forem dadas agora de maneira consistente e coerente quanto ao curso futuro das políticas na nova administração, há um enorme espaço para uma apreciação do real.''
O ministro elogia o coordenador da transição, Antônio Palocci, ''que tem sido extremamente habilidoso'' e contribuído para reduzir o grau de incerteza que contaminou o período eleitoral. Adverte, porém, que o nervosismo no mercado ainda está presente e foi facilmente percebido no episódio da divulgação da decisão da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, de optar por não pagar uma parcela da dívida, como previa o contrato assinado com a União.
Malan afirma, ainda, ser contra renegociar as dívidas dos Estados, porque isso se inclui na questão de respeito aos contratos. E avisa que uma renegociação não seria uma operação trivial: além de implicar uma mudança na Lei de Responsabilidade Fiscal, obrigará a União a fazer um maior esforço fiscal, com a necessidade de aumento de impostos ou corte de gastos, ou a combinação de ambos. A seguir, os principais trechos da entrevista:
Agora que o novo governo está eleito há menos riscos de turbulências no mercado?
Pedro Malan Essas incertezas, riscos, turbulências estarão conosco por algum tempo, mas não acho que sejam derivadas exclusivamente das questões quanto ao curso futuro dos eventos ou grau de coerência e consistência da futura administração, embora isso seja extremamente importante. Estamos vivendo ainda um contexto internacional marcado por elevadíssimo grau de incertezas. Não se pode deixar isso de lado. Internamente, acredito que os resultados extraordinários nas contas externas tem aplacado muito as incertezas. A ficha começa a cair agora, com certa defasagem. É um ajuste estrutural.
Mas a cotação do dólar ainda está elevada.
Malan Nós achamos que o câmbio está subvalorizado. Há espaço para apreciação do real em relação ao dólar, tanto em termos reais como nominais. O coordenador da equipe de transição é uma pessoa extremamente sensata, equilibrada, objetiva. Ele tem dado sinais apropriados ao reiterar compromissos escritos feitos durante a campanha, como o respeito a contratos. E respeito a contratos deve incluir os firmados com 25 Estados e 183 municípios, com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a preservação da inflação sob controle, a responsabilidade fiscal, a geração do superávit primário necessário para estabilizar a relação dívida e Produto Interno Bruto (PIB).
A reafirmação desses compromissos contribui para a queda do dólar?
Malan Eu acho, e disse isso claramente nas conversas, inclusive na que tive com o presidente eleito, que há uma oportunidade de ouro para o partido que ganhou as eleições. Se sinalizações apropriadas forem dadas agora de maneira consistente e coerente quanto ao curso futuro das políticas na nova administração, há um enorme espaço para uma apreciação do real, com efeitos sobre a relação entre dívida e PIB. Há também um enorme espaço para a redução em vários pontos, talvez em centenas de pontos porcentuais, do risco Brasil. Há anos eu digo que o mundo real é movido por expectativas quanto ao curso futuro dos eventos. Portanto, na medida em que faltam sete semanas para terminar este governo, as expectativas já incorporam o que podem vir a ser as políticas da futura administração. As sinalizações que estão dando desde agora têm sido corretas. Tanto assim que houve uma redução do grau de tensão e nervosismo. Mas existe um grau de nervosismo latente ainda.
A alta do dólar já não comprometeu o controle da inflação no País?
Malan Eu faço uma diferença muito grande, talvez porque eu vivi esse processo. Lá em meados de 1993, a discussão era se a inflação ficaria em 2.500% e 3.000% naquele ano. Esse período não voltará. Hoje, nós estamos discutindo se a inflação vai ser 0,5 ponto porcentual, 1 ponto porcentual acima daquelas faixas que estão no programa com o FMI, que já são metas mais flexíveis. Eu não acho que exista a possibilidade de a inflação fugir de controle.
Qual o maior risco?
Malan O risco de inflação é sempre de retorno, ainda que gradual, de indexação formal ou informal, encurtamento de prazos para a indexação, o que eu presumo que não vá ocorrer. A questão central para isso, aqui como em qualquer país, é a política macroeconômica fiscal e monetária. É isso que mantém a inflação sob controle.
Se o conteúdo do discurso de Lula no dia da vitória fosse mais econômico já haveria a queda do dólar?
Malan No discurso de vitória, imediatamente após o resultado da eleição, não era o momento de detalhar o programa econômico. Não acho que seja questão de um discurso, de uma declaração. Há a percepção por parte dos agentes econômicos relevantes de que há um grau de coerência e consistência na sequência de declarações, comentários, entrevistas que indicam claros compromissos. Volto ao exemplo da Prefeitura, que teve efeito desproporcional, dado que era um mal-entendido, mas mostra o grau de nervosismo que ainda prevalece e é fundamental reduzir. Isso não se faz num dia, com uma declaração. Se faz no dia-a-dia.





