MAL ULTRAPASSADO? - Mais de 40 mil brasileiros têm hanseníase
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quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
Uma das doenças mais antigas da humanidade é a hanseníase. Surgida em torno de 600 a.C, foi conhecida durante muito tempo como lepra. A enfermidade foi responsável pelo sofrimento de milhares de pessoas que, devido ao caráter contagioso da doença, eram isoladas nos leprosários.
Centenas de anos depois e graças ao avanço científico, a hanseníase pode ser controlada e curada logo após o diagnóstico. No Brasil, o tratamento é gratuito. Apesar disso, ainda é grande o número de brasileiros afetados.
Em novembro do ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) pontuou que o Brasil seria, em seis meses, o único país a não atingir a meta de eliminar a hanseníase. Uma enfermidade é considerada eliminada quando tenha registro de menos de um caso para cada 10 mil habitantes por ano. Quando não há mais nenhum registro, a doença é considerada erradicada.
Marcos da Cunha Lopes Virmond, presidente da Sociedade Brasileira de Hansenologia, em entrevista à FOLHA comenta esses índices e o que ainda precisa ser feito no País. ''A cura da doença é completa e sem sequelas se o paciente for dignosticado cedo e tomar todos os medicamentos que lhe serão oferecidos,'' explica.
Como estamos hoje em relação à meta da OMS? Realmente não conseguimos atingi-la?
Estamos em melhor situação em termos de eliminação. Entretanto, recentemente, o Ministério da Saúde decidiu abandonar a meta de eliminação. De fato, esta iniciativa teve um momento muito apropriado para que se desse relevo político às questões da hanseníase e se melhorasse de maneira espantosa a qualidade e a cobertura dos serviços de atenção aos pacientes dessa doença.
O que falta para eliminarmos a hanseníase do Brasil?
Temos que aumentar a atenção de qualidade aos casos de hanseníase. Isto se faz com oferta de serviços competentes junto às comunidades onde residem os casos. Assim, precisamos ter mais profissionais de saúde envolvidos nesse processo e garantir ainda mais a oferta de medicamentos aos casos detectados.
Quais os números que temos hoje?
Ao longo de 2008 foram diagnosticados 38.914 casos. Somados aos casos anteriores, temos um total de 41.817 casos em tratamento. Este número é alto. A faixa etária mais atingida é dos 20 aos 50 anos. É bom frisar que entre os casos novos de 2008, encontramos 2.710 em crianças, isto é, pacientes com menos de 15 anos.
Esse é o fato mais sério e o Ministério da Saúde está agindo de forma intensa para reduzir drasticamente a ocorrência de casos novos em crianças. O certo é que tivéssemos poucos casos de hanseníase, uma vez que a doença não é difícil de ser diagnosticada e tem tratamento muito efetivo e disponibilizado gratuitamente na rede pública.
O que explica o número de pessoas infectadas?
Apesar da oferta de diagnóstico e medicamentos gratuitos, muitas pessoas não têm noção do que está ocorrendo. Uma campanha mais efetiva sobre os sinais precoces da doença poderia facitilitar o diagnóstico mais cedo e seu tratamento. Por outro lado, a condição social e nutricional de uma parte importante de nossa população facilita o contágio por esta doença.
O preconceito ainda é grande?
De fato, ainda há um certo preconceito contra as pessoas com hanseníase, mas isto diminuiu muito após a introdução do tratamento efetivo.
O que pode ser melhorado na estrutura de saúde no Brasil?
Temos que ter uma atenção básica de melhor qualidade em alguns municípios e também capacitar mais os profissionais de saúde. O importante é que o paciente com uma suspeita de hanseníase possa ter seu caso resolvido de forma rápida e efetiva, isto é, sem muita demora ou com muito sacrifício para o indivíduo.
Por que a doença é relacionada a baixa qualidade de vida?
Porque a transmissão da doença também está ligada à convivência em espaços pequenos, com muitas pessoas morando em cômodos únicos e com baixa condição de higiene. Assim, podemos dizer que em locais onde as condições de moradia e de saneamento básico são corretas, adequadas, a disseminação da hanseníase é pouco provável. Tome-se o exemplo da Noruega e outros países da Europa que eliminaram hanseníase mesmo antes de surgir um tratamento com medicamentos.


