O Fórum Nacional Contra o Pedágio quer a criação de uma lei para regulamentar o sistema em todo o Brasil. Para isso, está organizando um abaixo-assinado para cobrar mudanças na legislação. O fórum vai pedir o apoio de diversas entidades representativas da sociedade para conseguir ao menos 1,4 milhão de assinaturas para viabilizar o projeto. O movimento não descarta a possibilidade de coletar assinaturas até mesmo nas praças de pedágio.
  A coleta de assinaturas será intensificada no começo do ano e a intenção é levar o projeto ao Congresso Nacional no mês de agosto. O coordenador geral do fórum, Acir Mezzadri, considera o pedágio um mal necessário, mas define como ‘‘criminosa’’ a forma como as rodovias foram ‘‘loteadas’’ entre as concessionárias beneficiadas.
  Mezzadri afirma que as concessionárias são ligadas às grandes empreiteiras do País e que, por isso, têm grande influência junto aos poderes constituídos. Mesmo assim, ele acredita na aprovação do projeto.
O que o fórum pretende com a criação de uma lei que regulamenta o pedágio?
  O pedágio existe em vários países, nos Estados Unidos, na Europa. O que nós queremos é ter um modelo brasileiro que não pode ser, em hipótese alguma, nem parecido com esse que está aí. O que está aí, no nosso entendimento, não é pedágio. Foi a entrega de rodovias para velhas e conhecidas empreiteiras. É inaceitável o que está acontecendo no País. Na verdade, é mais um imposto, mais uma tarifa em cima de toda a sociedade. Não é só quem tem automóvel que paga. Todos pagam, mas quem mais paga é a base da pirâmide do povo brasileiro, que são os menos favorecidos, todos os trabalhadores de um modo geral.
Como o fórum pretende fazer essa coleta de assinaturas?
  Nós vamos iniciar esse trabalho pela internet. Hoje a velocidade da comunicação pela internet é uma revolução que faz com que todo mundo tenha conhecimento de todos os detalhes e acompanhe quase que diariamente o que está ocorrendo. O movimento pretende que haja participação de toda a sociedade, que todo mundo tenha informações e participe dessa grande mobilização que nós pretendemos alcançar ao longo do próximo ano. Nós também vamos fazer caravanas com o apoio do sindicato dos transportadores de cargas; vamos fazer grandes caravanas do Rio Grande do Sul ao Rio de Janeiro distribuindo o projeto de lei para que as pessoas estudem e nos encaminhem 6, 8 ou 10 assinaturas pelo correio. Isso é coisa simples.
Como o fórum pretende mobilizar a sociedade? Haverá parceria com outras entidades?
  Com todas as entidades, de estudantes, de transporte de carga, de trabalhadores, todos os partidos, igrejas, os sindicatos de trabalhadores, de profissionais liberais. A população inteira será conclamada a participar, a ter uma eventual participação no processo, acrescentando alguma coisa a mais, enfim. Nós estamos preparando o projeto para que a sociedade inteira se debruce em cima dessa questão porque ela não pode continuar da forma como está. É importante que todos saibam que quem paga o pedágio é a grande base da pirâmide, tenha ou não tenha automóvel.
A coleta de assinaturas poderá ser feita também nas proximidades das praças de pedágio?
  Também poderá ser feito isso. É fundamental. Por que não? A rodovia é pública. A gente pode criar grupos de caminhoneiros para coletar as assinaturas em postos de gasolina, restaurantes de beira de estrada, oficinas mecânicas, barbeiros, e também nas praças de pedágio. Isso contagia.
O fórum acredita que houve erro na concessão das rodovias?
  As concessionárias, na verdade, são nomes de fachada, ‘‘rodo isso’’, ‘‘rodo aquilo’’. Elas abrigam uma associação das maiores empreiteiras do País que estão aí há 60 anos. Nós queremos discutir publicamente os verdadeiros motivos para eles entregarem as rodovias. Eu gostaria de salientar o seguinte: foi uma esperteza, uma forma de uma arrecadação estupenda, gigantesca das concessões no Brasil todo porque, de certa forma, elas foram muito bem planejadas no momento em que aconteceram todas as privatizações no País.
O que houve de errado?
  O pedágio no Brasil não tem vias alternativas, como em outros países. Nós temos conhecimento que o pedágio foi introduzido no País de uma forma um tanto criminosa porque eles permitiram que em quase todo o Brasil as rodovias ficassem sem manutenção nenhuma durante seis ou oito meses, um ano. E sem manutenção, ficaram intransitáveis. Foram inúmeros acidentes que aconteceram nessas rodovias, trazendo prejuízo financeiro para os proprietários de automóveis e caminhões, como também ceifaram muitas vidas. Esse foi o preço para que a população aceitasse de forma submissa e de forma cabisbaixa esse modelo, que é um modelo inaceitável, eu diria criminoso.
Essa foi, então, uma estratégia para justificar a implantação do pedágio?
  Evidentemente foi estratégia. Muito antes de implantar o pedágio eles plantaram pessoas da confiança deles em todos os sindicatos, federações do transporte de cargas, por exemplo. As pessoas, em vez de fiscalizarem em favor do povo, fiscalizavam em favor das grandes empreiteiras. Essa é a realidade. E eles são muito gentis e atenciosos com todos os prefeitos das grandes cidades do Brasil, com os prefeitos das capitais, bem como os governantes. Eles têm portas abertas nos grandes palácios e palácios não são só de governo. Eles transitam com desenvoltura no Poder Legislativo, no Poder Judiciário e no Ministério Público. O fórum tem estudos e vai fazer elogios aos poderes, mas também vai fazer críticas contundentes.
O sr. acredita que com todo esse esquema de proteção é possível aprovar um projeto de lei para mudar isso?
  Sabe por que é possível? Porque eles não vão querer sair da escuridão. Eles são como vampiros, não querem luz. Mas a forma nós já descobrimos qual é: muita claridade, muita luz, e essa luz vem do povo. A Constituição garante isso: todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido. É só através da população. Se ficarem só as lideranças, eles colocam estas pessoas na cadeia, mas se houver apoio popular, aí nós ganhamos a briga. A população é mais forte.
O sr. acha que consegue?
  Nós temos certeza absoluta que vamos conseguir.

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