Comemora-se, atualmente, com fartura de motivos, os 30 anos do Calçadão da Rua XV de Novembro, uma espécie de ícone das transformações que Curitiba viria a sofrer ao longo dessas três décadas. É importante esta lembrança também como projeção do futuro para a metrópole e seus habitantes.
Foram planejadas as mudanças na Rua XV, que já teve o nome de Imperatriz, na contramão do modismo: enquanto na maioria das capitais do País as avenidas eram alargadas para dar mais espaço ao automóvel, aqui devolvíamos as ruas aos pedestres. Era algo inédito e, como sempre acontece com o novo, visto com desconfiança. A XV começou a ser ''fechada'', nas quadras entre Presidente Farias e Monsenhor Celso, na noite do dia 19 de maio de 1972, uma sexta-feira, depois de encerrado o expediente, para que, até segunda-feira, pela manhã, a obra pudesse estar pronta e se evitasse possíveis mandados de segurança impetrados por comerciantes. Eles temiam perder seus fregueses com o fechamento da rua ao trânsito de veículos. Tempos depois, quando se deu exatamente ao contrário de sua expectativa, não só os comerciantes aplaudiam a medida, como outros solicitavam que se interrompesse o tráfego nas outras quadras da rua. Nos meses seguintes, o Calçadão estendia-se por 1,2 mil metros, da rua Voluntários da Pátria até esquina com Presidente Farias, com aprovação total da população e, claro, dos comerciantes. No início, os transeuntes não ocupavam o meio do Calçadão, como se seu leito não pertencesse às pessoas e estivesse ainda destinado aos veículos. Por isso, foram instalados diversos equipamentos neste espaço (floreiras, cafés, bancas de revistas, bancos de madeira etc.) e, paulatinamente, as pessoas foram não só ocupando este espaço, como estabelecendo pontos de encontro, de conversas, de troca de experiências... Proibiu-se a presença de novos pontos bancários, para se evitar o ''fechamento'' da rua após o término do expediente das instituições financeiras. Estimulou-se o funcionamento de galerias, lojas , pontos de frequência tradicional dos curitibanos. Hoje, a rua, que foi modelo para inúmeras capitais e cidades de todo o País, é o espelho de Curitiba, por onde transitam, em média, 10 mil pessoas por hora.
Estava inaugurada uma série de transformações na cidade, que mudaria radicalmente seu perfil, que foi sendo cada vez mais moldado para a melhoria da qualidade de vida dos curitibanos. Seguiram-se, na época, a implantação do anel central de tráfego lento, dos eixos estruturais Norte e Sul, onde, dois anos depois, começou a funcionar o sistema de ônibus expressos, os parques, a Cidade Industrial de Curitiba etc.
Mas, não podemos nos deter apenas nas comemorações do aniversário da transformação da rua XV. Há que se olhar para o seu e nosso futuro, que podem continuar uma trilha de transformações que não só beneficiem nossa população, mas sirva de exemplo para outras capitais e cidades. Não se pode contentar-se com o que já foi feito. Precisamos evoluir.
Por exemplo: o Calçadão precisa de obras que proporcionem mais vida em todos os momentos, seja de dia ou à noite. Especialmente obras de arte que impeçam seus ''cortes'' de tráfego, com a construção de galerias subterrâneas, extremamente bem iluminadas e equipadas, que resultem na continuidade da rua. Nesses subterrâneos, que devem ser construídos em cruzamentos com maior movimento, como os da Marechal Deodoro, Dr. Muricy e Barão do Rio Branco, haveria o estímulo para a instalação de lojas, diversos equipamentos, locais de prática cultural etc., para que a rua não só tivesse continuidade ao seu fluxo humano, mas, sobretudo, motivasse a frequência e respondesse à expectativa de comerciantes. Os agentes da vida ''subterrânea'' nesses locais seriam os mesmos do movimento à superfície. Nos cruzamentos, os veículos teriam maior agilidade nos deslocamentos. Nas passagens subterrâneas, as pessoas teriam maior tranquilidade e segurança.
Na extensão atual da rua mais charmosa e frequentada de Curitiba é preciso fomentar a criatividade, a segurança, o estímulo para novos pontos de encontro, a abertura de novas lojas, bares, cafés, a beleza de vitrines, os acontecimentos culturais, enfim tornar ainda mais atraente o Calçadão que, ao completar 30 anos, ainda provoca expressões surpreendentes não só de visitantes, mas dos próprios moradores da cidade. A Rua XV deve marcar e determinar novas transformações em sua existência e na vida da cidade.
RAFAEL DELY - Arquiteto, ex-presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), atual secretário especial de Política Habitacional do Estado e um dos responsáveis pelo planejamento e execução de mudanças no urbanismo da capital paranaense

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