Primeiro, a destinação do dinheiro da venda de carros da Assembléia Legislativa seria a implantação de uma TV própria da Casa, mas o presidente Hermas Brandão diz que tal não é necessário porque, para a televisão, já há dinheiro em caixa. E imediatamente um deputado – Mário Sérgio Bradock – teve outra idéia tão ‘‘genial’’ quanto a da TV, para aplicar a verba: construir junto ao complexo da Assembléia um prédio anexo. Ironicamente, o lugar é onde se localizava a garagem dos veículos ora à venda. A pergunta que surge, de imediato, é para que os deputados iriam precisar de mais espaço se o que têm já é mais que suficiente e até desperdiçado. A venda dos carros deverá render R$ 4 milhões, dinheiro que serviria para obras sociais, de interesse do povo, mas que está servindo para alimentar sonhos mirabolantes. Tanto a TV como o anexo são duas inutilidades, mas ante tanta abundância de dinheiro, elas acabam sendo prioridade na mente dos parlamentares – os que propõem e os que consentem calando-se. O que não deixa de constituir uma forma de corrupção, palavra que também pode ser aplicada ao mau uso do dinheiro do povo.
  O objetivo da extinção da frota de veículos, segundo Brandão, é eliminar as mordomias e moralizar o uso do dinheiro público, mas vê-se logo que isso é tão real quanto miragens, porque elimina-se um segmento da farra pública para criar outros. O curioso é que, dentre os 54 deputados, não se ouve uma única voz que ofereça sugestão melhor para a destinação daquela soma, num Estado de tantas carências sociais. Há uma serena mudez, e cada qual que imagine as razões. O que é improbidade administrativa senão a má destinação do dinheiro que pertence aos cidadãos? (Esses veículos, diga-se apenas de passagem, estavam onerados com R$ 400 mil de multas, no início do ano passado, e outras irregularidades, isto servindo para avaliar o comportamento dos respectivos condutores).
  Se o desprezo com o dinheiro do povo já é algo grave, igualmente vergonhosa é a falta de decoro, a despreocupação com a opinião pública, um verdadeiro deboche na face da população. Ademais, sabe-se quanto é onerosa a manutenção dessa casa legislativa – como de resto nas congêneres de todo o País e na máquina pública em geral – com gastos exorbitantes à conta das mordomias, do volumoso contingente de assessores e das verbas de representação. É farta a cota orçamentária destinada à Casa, possibilitando o desenfreado festival da gastança. E tudo dentro das normas estabelecidas em lei pelos próprios parlamentares.

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