Mais uma guerra sem sentido
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 12 de novembro de 2001
Padre Manoel Joaquim dos Santos 
Embora acredite que não existem guerras sensatas ou lógicas e que todas arranham o absurdo da história, consi dero a campa nha americana no Afeganistão, denominada ''Liberdade Duradoura'', iníqua e perversa, provocando nosso bom senso e indignação.
Há exatos dez anos, os mesmos americanos invadiam o Iraque para defender o Kuwait país que a maioria dos mortais sequer conhecia! Na época Sadam Hussein foi eleito inimigo global e a opinião pública mundial se encarregou de considerá-lo como persona non grata, torcendo pela sua derrubada política. Essa só não aconteceu por um simples motivo: a alternativa poderia ser pior, na ótica norte americana. Foi então melhor controlar um ditador assustado e perdedor do que arriscar o ''novo'' na fronteira com o Irã inimigo mortal dos EUA! Sadam está lá até hoje com suas armas biológicas e suas narcisistas manifestações e os aviões americanos insinuam sobrevoar de novo os céus do Iraque para mantê-lo longe do conflito, que agora é mais além!
Os trágicos acontecimentos do World Trade Center deram infelizmente aos americanos a deixa, para mais uma incursão. Bin Laden é o novo eleito! Este homem, que já gozou em tempos da simpatia ocidental, está algures escondido nas montanhas inexpugnáveis do Afeganistão. O Taleban que em outras épocas recebeu sorrisos dos ianques pela espetacular vitória sobre os soviéticos, é atualmente a personificação do demônio em terras islâmicas. O espetacular aparato bélico dos americanos deslocou-se para o Golfo e dali, colocando o presidente do Paquistão na mais constrangedora situação, bombardeia o povo afegão. A oposição paquistanesa afinada com os talebans está em vias de derrubar o presidente, que a propósito tomou o poder pela força! Este é talvez o fator mais delicado da cruzada americana! Com a queda do ditador, cai também em poder de quem não ''pode'' a chave das armas atômicas que o Paquistão possui. A Índia treme diariamente diante desta possibilidade e o mundo vive apreensivo sabendo que os dois países têm as mesmas armas! Com estas considerações dá para perceber o tamanho do caldeirão que envolve a operação anti terror. Mas não é só! Os talebans argumentam com a falta de provas americanas sobre o envolvimento de Bin Laden nos ataques terroristas e querem que ele seja julgado em países árabes. Consideram o rapaz seu hóspede e hospitalidade islâmica é hospitalidade! Não vão entregá-lo mesmo! Enquanto isso, os campos de refugiados na fronteira vão aumentando em número e mazelas proporcionais, refletindo a malvadeza de qualquer guerra. O povo afegão paga mais uma vez a estranha fatura! A fome e as ruínas em Cabul são o sintoma de que nada mudou desde a última guerra.
A Aliança do Norte quer tomar o poder. Há anos atrás, os americanos veriam com desconfiança esta gente e não consta nos anais de Washington qualquer ajuda aos rebeldes! Agora vale tudo para ''limpar'' o Afeganistão. Os inimigos de ontem são os amigos de hoje e estes serão os inimigos de amanhã! A lógica da guerra!
O povo americano já não manifesta o apoio total (inicial) à luta contra o terror. A razão foi se impondo na maioria dos cidadãos que manifestam agora apreensão quanto às conseqências desta ''briga'', refletidas na síndrome do antrax que ameaça minar os alicerces da tradicional tranquilidade americana. Enfim, chega-se à triste e elementar conclusão de que uma guerra não tem vencedores!
Mas tem mais. Os EUA são o maior fabricante de armas do mundo. A cada ano surge uma nova, mais mortífera e terrível do que a anterior. É preciso testá-la! É necessário diminuir o estoque! Afinal pessoas trabalham e ganham seu sustento nesse ramo! O desemprego é outro antrax nos Estado Unidos! Uma guerra é a grande oportunidade de aumentar a produção! Mais armas, mais dinheiro, maior o fosso entre fabricantes e tradicionais consumidores. Sim, pois quando as guerras espetaculares e transmitidas via satélite não acontecem, há países que vivem permanentemente nelas! Governos que trocam seu petróleo por inovações... pelo último grito do míssil! E assim, a máquina terrível e escandalosa que mantém o equilíbrio atual no espectro mundial, continua fazendo suas vítimas à custa da completa ausência de lógica e bom senso, à sombra do império permanente do absurdo. Granada, El Salvador, Nicarágua, Haiti, Vietnã... Iraque e Afeganistão. Eis os nomes periódicos do triunfo da tirania e do absurdo! A guerra nunca terá sentido e sempre será geradora de fome, miséria, doença e muito, mas muito ódio!
- PADRE MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é integrante do Movimento pela Moralização na Administração Pública de Londrina


