MAIS UMA CHANCE - Brasil é decisivo para acordo climático
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 22 de março de 2010
Érika Gonçalves<BR>Reportagem Local 
Repartição de benefícios é o grande foco
Questão mais rápida é a falta de água potável disponível
O meio ambiente está na mídia. Com tantos terremotos, chuvas, deslizamentos de terra, é mais do que necessário se discutir o que fazer para ''deter'' a natureza. No ano passado o resultado da Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre Mudanças Climáticas (COP-15), realizada em Copenhague, na Dinamarca, deixou a desejar. Neste ano, dois novos eventos pretendem dar novos rumos ao planeta, antes que seja tarde.
Malu Nunes é diretora executiva da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, que há 20 anos investe em áreas protegidas e luta pela preservação da biodiversidade. Em entrevista à FOLHA, ela mostra a importância do Brasil no cenário mundial e o que será feito em 2010, escolhido pela ONU como o Ano Internacional da Biodiversidade.
Qual a importância de o Brasil contar com 20% das espécies do mundo?
Até a próxima Convenção da Biodiversidade, que será realizada este ano no Japão, o Brasil é o presidente dos países megadiversos e ainda pode ter uma liderança forte em puxar os acordos que precisam ser feitos para implementar a Convenção da Biodiversidade Biológica.
Temos três grandes objetivos, que são a conservação dos recursos, o uso sustentável destes e a repartição justa e equitativa dos benefícios resultantes do acesso aos recursos genéticos (biodiversidade). Isso tudo precisa avançar e, da mesma forma que a gente precisa de um acordo de clima, precisa de acordo entre os países.
E o que tem colocado a biodiversidade em risco?
A diversidade biológica é responsável por vários dos serviços ambientais que temos: a regulação do clima, fornecimento de água limpa em quantidade suficiente, alimentos, medicação. No momento que a gente destrói isso, está colocando em risco a nossa sobrevivência.
Quais os danos que a pirataria biológica pode trazer?
Temos um dano bem presente que pode ter a ver com essa pirataria e com essa troca de um país para outro, que são as invasões biológicas. Quando você leva um recurso, uma espécie vegetal ou animal de um país para outro, você causa um desequilíbrio. Quando estamos falando de biopirataria tem todo um interesse econômico, mais impactante, envolvido nisso.
O simples ato de visitar um lugar e levar uma planta pode provocar desequilíbrio?
Isso mesmo, porque você leva uma planta e é preciso alimentar essa planta. Então você começa a favorecer o crescimento daquela população, que impacta em outra. É um ecossistema funcionando. Você altera uma das pontas e faz com que a outra se altere também e não tem mais controle sobre isso.
Sobre a COP-15, quais as consequências da falta de acordo?
Em termos de planeta, de diversidade, qualquer falta de acordo, de decisão, de meta tem uma consequência gravíssima porque nós não temos mais tempo. Em termos de acordo, temos tempo porque só expira a primeira fase do Protocolo de Kyoto em 2012. A esperança é que na COP do México no final do ano a gente consiga o tão necessário e urgente acordo.
Quando pensamos em termos de mudança climática parece que um ano não é nada. Porém já estamos muito atrasados, temos pouco tempo. A gente já não sabe se vai ter controle da situação mesmo com o maior esforço possível e aceitável pelos países. Essa é uma consequência grave. A gente tem tido uma realidade muito mais intensa e mais rápida do que as previsões todas, de degradação e de aumento de efeitos do aquecimento global, ou seja, as mudanças climáticas estão sendo mais fortes e mais rápidas do que a gente imaginava e previa. Acho que está faltando um pouquinho de visão aos políticos, aos decisores, aos executivos e legislativos que estão no atual mandato.
Falando sobre isso, provavelmente na campanha esse assunto vai aparecer. Como distinguir o que é sério e o que é eleitoreiro?
O que talvez seja mais óbvio é o candidato que já está em reeleição. Quais foram as decisões anteriores dele, ele teve alguma decisão favorável ao meio ambiente, algum projeto, uma plataforma ou alguma ação pró-conservação? Então pode ser que ele tenha isso como uma coisa importante na carreira dele e vai levar a sério se assumir algum compromisso. Agora, você não tem garantias. O que você tem é que cobrar e não reeleger quem tomou decisões ruins para o meio ambiente. E isso a gente tem vários. É só entrar na folha corrida dos políticos e ver seus votos em cada projeto.
Quais as consequências imediatas para o meio ambiente e para a humanidade se continuarmos nesse mesmo ritmo?
A questão mais rápida é a falta de água potável disponível. Isto provoca conflitos. O mesmo vale também para a alimentação, para qualquer coisa que falte, com a destruição dos ecossistemas.
Ontem foi comemorado o Dia Mundial da Água. O senhor acredita que as populações ribeirinhas estão mais conscientes e preocupadas com a natureza?
Não dá para generalizar e não são todos. É que eles estão mais próximos, eles aparentemente são mais dependentes desse ambiente do que nós ou mais impactados diretamente, mas não precisa ser ribeirinho ou ser índio, basta morar em área de risco ambiental, na praia ou em ilhas. Qualquer população que esteja em um local mais frágil parece que é mais harmônico, mas não necessariamente.
Como podemos estimular isso?
Temos que trabalhar com essas populações, elas precisam de apoio, não só na questão ambiental, apoio de tudo, de acesso a direitos, a tudo. Mas essa é uma questão mais social do que ambiental. Porém você tem que trabalhar com os grandes decisores, que têm poder para evitar ou causar grandes impactos.
E este ano é o ano da Biodiversidade.
As pessoas estão na cidade, aparentemente longe, mas a água vem de lá, a comida, a roupa, tudo vem de lá. Parece que estamos mais protegidos, independentemente dessa conservação, mas não é.
O que há programado para este ano?
Vamos estar trabalhando o ano todo com campanhas, eventos, oficinas, para promover um pouco mais esse tema, fazer um esclarecimento. Vamos esperar em Nagoya (Japão), em outubro, a Convenção da Biodiversidade Biológica. O Brasil não tem um grande projeto pronto, mas tem em construção esse acordo de repartição de benefícios, que é o grande foco. As pessoas acabam tendo mais interesse, mais boa vontade, mais entendimento quando você fala em repartição de benefícios oriundos da biodiversidade do que você falar em conservar.
Parece que quando se fala em conservar você está tirando das pessoas e não é, justamente está salvando delas e para elas. Em termos de política nós já somos um país avançado, temos política de biodiversidade, planos, tudo. A questão é pôr em prática para conseguir de fato evitar desmatamento, evitar destruição dessa biodiversidade.


